terça-feira, 14 de agosto de 2007

FUNDO


Para que servem palavras escritas
sem um Deus mudo de sentido,
governando entre linhas interditas
pela hora gasta do poema exigido?

Se há fundo de ser não conhecido
para que vivemos enfeitados,
é um qualquer Deus requerido
na hora que somos chamados.

As palavras ditam-se pela impossibilidade
de as remetermos para outro lugar
que não seja a possível verdade
de não haver lugar para encontrar.

Escrevo na impossibilidade de viver,
no jogo que o possível exaure e abre
como um outro Deus para entreter
e que por gozo ninguém sabe.

P.A.

MORTE DOS TEMPOS


Fui até à floresta dos acasos
sob árvores estacionárias,
pisei de olhos rasos
algumas folhas precárias

Parei, despi meu manto,
elevei no crepúsculo a enxada,
crente cavei meu antro
e pus flores à entrada

Aí depositei meu corpo,
quebrei os últimos ligamentos
da vida de um morto,

esperei por novos rebentos
que da minha alma nascessem,
e apenas sofri a morte dos tempos.

P.A.

domingo, 12 de agosto de 2007

LUGARES


Por vezes não sei o que sobeja dos meus dias, por isso gosto de reter-lhes pedaços de alguns instantes, é a minha maneira de lhes pertencer para sempre.
Suspender aquilo que demais nos faz levantar todas a manhãs e se reparte pelo reconhecimento possível de pessoas e lugares, emergido de outro espaço e tempo abreviados de explicação.
Suster a brevidade dos sentidos durante as pausas que nos permitimos fazer à vida, como o céu que se olha todos os dias mas porque sempre se olha nunca se vê.
Lugares é o tempo diário que decorre de outro tempo mais íntimo, abrangente e primordial como um sonho restabelecido, que desejo fotografar sem o risco de me atrasar para o imediato, mas na convicção de que o aqui e agora se cumpre na eternidade desse tempo, para onde convergem a memória e expectativa.

P.A.