sábado, 13 de outubro de 2007

Espectro


São todos os caminhos a morte espectral, aprofundando os encargos do corpo quando este se vê com tanta razão de existir como as ervas nulas que assediam o desencanto. Qual o mais vivente entre os viventes se a todos o espectro do desencanto aprofunda na existência que se quer ser, na subsistência alheia e incomunicável lançada pela indefinição de causas? Talvez as pequenas flores do monte sofram mais o seu desconhecimento enraizado do que um corpo o seu tédio volúvel contemplado pelo espírito. As flores assediam, o vento indica, a alma murmura. Não temos mais que breves indicações do ser, como colunas de pedra no deserto a assinalar a nossa presença infantil num universo de dados, sinos cujo eco expande a nossa radicação, setas apontadas ao vácuo dos sentidos ou intenções que se esgotam na espera do fruto visível. A morte espectral colhe-nos enquanto erguemos colunas ou tocamos os sinos para que sejamos sempre nova visão divertida de um palco comum. Não há este ou aquele caminho que certo bem ilumina ou certo mal transvia. Há o término de todos os seres dividido em portais que esgotam a singular vontade de ser, o entardecer que curva numa opacidade de vertigens, há enfim, todos os caminhos que se cumprem pelo próprio compromisso que morre.

P.A.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Presença


A mais sublime noção filosófica intuída é simples e desinteressada, não pelo facto de pertencer ao senso comum ou exigir menos atenção à vida, mas porque se descodifica na inocência flutuante de sentirmos o mundo, de irradiarmos o corpo infantilmente para fora dos caprichos intelectuais, vitalizando-o com o sentido que excede da nossa presença. Antes de tudo estamos presentes na ocasião do olhar, do ouvir, do cheirar a civilização escorrida pelas cidades curvadas, do inalar constante da marcha fúnebre em direcção aos vales sem resposta. A presença é um fogo para onde somos integralmente arremessados como vivas imagens do interior das catedrais.
Escrevo na presença de finas partículas que se movem no momento, os dedos das mãos entreabertos ocupam um espaço único e particular, tocando pensativamente o interior vazio. Escrevo na existência efectiva que sobeja num tempo neutro como um lugar morto. Antes de tudo somos um pensamento de fundo ao adejar da luz, uma respiração inefável que se incorpora na óptica do tempo, meia face iluminada no nulo da janela. Antes de tudo somos uma analogia nostálgica do cosmos quando tudo chega a ser nada como sobreviventes equivocados.
Preciso apenas de ver o mar e escrever quando me apetecer, quando o tempo trespassar a vontade e remover o entulho das reminiscências. De ser apenas e recusar-me às vezes. Beber uma cerveja e entrar no restaurante sem dinheiro, conversarmos sobre o que poderíamos ter feito em vez de comermos pela espera de qualquer sabor diferente. É isto a liberdade, o prazer de recusar o tempo opondo um tempo pessoal, mais sensível ao ritmo cardíaco e às marcas primitivas da existência que recrutamos numa salva de risos espremidos de lágrimas. Preciso apenas de sentir o esperado e o inesperado como uma música de jazz cujas cifras melódicas, rigorosamente soltas, conectam-nos à origem do movimento criador dentro de outro movimento alargado.

P.A

domingo, 30 de setembro de 2007

Madrugada


Vassalos da felicidade equestre
Que de noite recuperam imagens
Por que a vontade investe
Em madrugadas de outras margens.

Noite onde a felicidade figura
Em sonhos nobres e equidistantes,
abrindo delével fissura
pela noite dos semblantes.

Semblantes que na margem
Preferida preparam a felicidade,
Entre sonhos de vassalagem,
No sono da equidade.

P.A.

sábado, 29 de setembro de 2007

Criação


Valha-nos qualquer mão benevolente
Como a que no início tragou o mundo
Num equivoco cego de repente
Pondo-nos em cifras de saber rotundo.

Quebrou-se o barro de uma grande peça
E a boca sobra com meia asa segura,
Eclosão que logo a seguir nos resta
a libertar-se na lembrança que perdura.

Valha-nos não só a imagem com olhar de pena
De um Deus fixo sobre a peça abandonada,
como a sentença da obra criada sem tema
e a mão sobre a inquietação trasladada.

Hoje é grande o vácuo da imperfeição
Onde esculpimos a verdade em cada pedaço,
O que era vai sendo o esboço da redenção
Do advento quebrado em novo espaço.

P.A.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Sociedade de controle


As transformações operadas nas duas últimas décadas, como resultado da aceleração dos fluxos de bens, ideias, serviços e pessoas, criaram novas realidades nacionais e transnacionais, assentes nas migrações e multiculturalismo, no desenvolvimento e globalização das tecnologias de comunicações e informações, no alargamento do comércio e respectivos mercados, e, consequentemente, na dependência e fragilização da soberania dos estados face a um novo espaço de interacção.

As denominadas “redes migratórias” informais surgem como uma realidade crescente, e assumem-se nos trilhos da clandestinidade, oriundas das mais diversas regiões, de modo cada vez mais organizado e estruturado. O fluxo de pessoas é subsequente ao desenvolvimento das tecnologias de comunicações e transportes, à alteração dos mecanismos de oferta e procura no mercado de trabalho face à maior ou menor qualificação dos migrantes.

Parece certo que os Estados se revelam incapazes de conter esses fluxos migratórios informais, num espaço transfronteiriço progressivamente lato e indefinido. Essa incapacidade poderá advir da falta de meios humanos e técnicos, do interesse instalado em determinados grupos ou organizações que protagonizam e incrementam as migrações clandestinas com a obtenção dos respectivos benefícios, e a quem os Estados poderão proteger no benefício político da aquisição de mão de obra não qualificada, para a eventual construção de obras públicas de projecção, ou ainda, da falta de vontade para se enfrentar uma realidade que é excessiva e desregulada desde a sua origem.

O défice de controlo externo dos Estados parece contrastar com a preocupação dos mesmos assegurarem o controlo interno das populações, com base na ameaça das minorias ilegais e desintegradas, para além das restantes minorias qualificadas que se encontrem em situação legal, e de todos nós que circulamos e convivemos em espaços potencialmente propícios ao desencadeamento de acções desviantes, cada vez mais vigiados, controlados, comprimidos na tensão de uma memória sempre futura. Pessoalmente, não tenho sentido uma perca nítida de liberdade ao acordar, mas reconheço que se deve tanto mais a uma fuga consciente e reprimida do que à realidade que me circunda.

O controlo individual justificado pela segurança colectiva é real, muito provavelmente necessário, por vezes legítimo. Contudo, o desejo de previsão do comportamento humano por parte da sociedade de controle, projectado na ameaça do imprevisível sobre a segurança e bem estar social, transporta-nos para um ambiente de tolerância zero, de vigilância total, de compressão de dados informativos que poderão ir até ao mais íntimo filamento carnal.

À semelhança de “Minority Report” de Steven Spielberg”, já somos sujeitos à leitura da íris para efeitos de controlo identificativo. Poderemos nada temer, mas a possibilidade de dissecação e correlação de dados numa grande memória actualizada e monitorizada à distância é, no mínimo, inquietante.

O poder repressivo e coercivo como reacção directa e consequente sobre acções que quebrem o regular funcionamento das normas sociais, deram lugar a um poder preventivo e discricionário, que actua no silêncio e sobriedade do controle permanente, antes da explosão do crime. Nesta óptica, na sociedade de controlo ou normativa, os indivíduos são vigiados e acompanhados desde o início da sua formação, no pulsar constante da sua existência, com o objectivo de prevenir e agir antes do desvio.

Restar-nos-ão, porventura, as intenções e os sentimentos que, tal como os fluxos migratórios informais, têm uma génese excessiva e desregulada, antecedem qualquer linguagem processada por medida, e permitem-nos dissimular a violência dos desejos escondidos. Porque somos pessoas que seguimos o espaço e o tempo com excepção, arrastamos os sentidos pela paisagem imiscuída de opacidade e tons, lascamos o universo à nossa medida, amamos, dependemos, consentimos, exasperamos, delinquímos, desviamo-nos para justificar-mos o acaso que somos, porque seremos sempre uma ameaça.

P.A.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Portal


Esta hora é vestida de intenções,
Da rua reflectida advém um rosto
Pelo mural feito de convicções
Até ao cais de algum barco suposto.

Tudo supõe e relembra no pensar
Qualquer coisa que está por ver,
Um prazer declinável por passar
Sobre uma construção para crer.

Este momento é outro qualquer
Que se enleva no portal já criado,
Que nem um vento presente sequer,
Atenuará o espírito rechaçado.

P.A.

Um só acto


Porque só no engano
Derradeiramente estou
Desce a vida o pano
Ao acto que acabou

Arrancaram cores
Decapitaram luzes
Onde estão os actores?
Que só vejo cruzes.

E o que é a plateia
Onde ninguém veio?
Represento numa teia
Um morto sem roteiro.

P.A.