terça-feira, 13 de novembro de 2007

Memória Presente


Mais um café depois de uma refeição afocinhada no tabuleiro de um qualquer Centro Comercial. Adolescentes precários inventam-se em roupas aplicadas na desordem dos corpos como palhaços tristes, jovens bancários e vendedores apressados, pálidos do dever, vertebrados da ocasião soluçam conversas enviesadas e creditadas formalmente, remetendo os sorrisos para os passos da menina da botica. Mulheres revêem-se lentamente em reflexos de montras numa crença imediata que falta à volúpia excitante de uma saia. Estilhaços de crianças descentradas compulsivamente como cursores à descoberta dos seus heróis.

Levantei-me e segui o cenário num andar quase incorpóreo de quem recorda o presente escoado e moribundo. Talvez ir ao cinema ver um daqueles filmes como “Desafio Total”, “Combate Final”ou “Encontro Fatal”, actores espadaúdos, plastificados de músculos, de aspecto cansado de tanto personificarem os nossos desejos e ilusões. Talvez ir buscar-te ao emprego, comprar o jornal, sorver mais um café, aquilo que demais nos faz levantar todas as manhãs e se reparte pelo reconhecimento possível das coisas, emergido de outro espaço e tempo abreviados de explicação. Falaremos pelo caminho ou talvez surjas a propósito de silenciarmos o que temos para dizer, guardado como o último trunfo no final do dia.

Repouso a percepção nas coisas sustentada pela memória a longo prazo sem a qual seria cego de tudo. Vejo recordando o tinir de imagens escolhidas para a ocasião sem esforço. Outras mais difíceis de acesso ao armazém de experiências actualizadas de acordo com o conteúdo percepcionado. Um sonhador em estado de vigília que percorre o fluido de vivências emolduradas no quarto de infância, um estranho que se abate sobre a memória do presente rutilante e inconsequente como um sonho primordial.

Afinal sigo em direcção a Sintra e pelo caminho lançam-se pontes inacabadas entre bairros poeirentos, onde se inventam lojas e cafés à espera de moribundos que caiam como insectos mortos. Recordo o presente, identifico-lhe os contornos e enquadro-o sem querer na memória já futura. Hoje é assim, amanhã talvez seja diferente e surja uma qualquer árvore sem o vício de se chamar árvore, um beijo sem o vício do cumprimento que o banaliza, uma estrada que não seja para seguir. Amanhã talvez siga em direcção a Sintra, pela primeira vez, depois de te ir buscar ao emprego e trazer-te pura nos gestos que nunca vi, apenas a memória do que irá acontecer.

P.A.

domingo, 4 de novembro de 2007

Carrís da Consciência


Passei muitas horas a ouvir o barulho de ferros resignados que oscilam pelos carris fixos ao destino. Amontoados de pessoas sem princípio, sem mistério, sem aparição. Homens e mulheres, crianças pequenas que berram o desconsolo assente, outras que riem o vórtice das cores que as atiram para o jogo dos sentidos, e ainda outras, alheias aos berros que acham não haver semelhança alguma com aqueles que alguma vez possam ter saído das suas bocas, vão contando conversas dos pais distraídos, ou peripécias da solidão surgidas junto do armário de brinquedos. Compreendem o mundo por motivações puras, vêem as coisas sem o vício do seu nome, riem pelo jogo da novidade que é a melhor maneira de aprender a mudança. Mais uma estação. Olha-se para quem entra e distraímos a nudez do destino. Muitos já deixaram o jogo da novidade, cresceram na previsão de um possível descalabro, dum insucesso sentido por todos, ou um amor desviante que nunca lhes pertencerá. Que desilusão me atropela quando sinto que tantas vezes arrasto as situações em vez de as recriar. Alguém disse um dia: Por vezes é preciso fazer merda. Fazer de conta que é assim, tracejar a realidade a fundo pela interioridade ilimitada, sabotar os carris da consciência contra o muro previsto, recriando cada tijolo na insuficiente paciência de encontrar, desarticular as hastes do olhar para além da substância, num realismo infantil construído internamente sem aviso. Hoje habituo-me à surpresa e o hábito surpreende-me. Sinto as coisas pela distância de as compreender e junto-lhes outra causa indizível. Outra estação. As crianças saltam, riem e não esperam. O comboio parou para mim e para elas não. Não prolongam a melancolia de um tempo projectado. Vivem-no inversamente numa novidade súbita. São o exterior vivido das coisas, tocam-lhes e anunciam a sua presença.

P.A.

domingo, 28 de outubro de 2007

É Domingo


Ao fundo vê-se o obelisco elevado na continuidade assente. A praia promete o desembarque das influências estrangeiras e traça o facto da terra descoberta. Mais para o interior as casas acolhem olhares pictóricos, povoações encarquilhadas de tanto conviver, sentem o mundo no presente perro de trabalho e acreditam no destino.
É Domingo. Dia dos sorrisos espalhados pelo largo da aldeia. Rumores trazidos do empenhamento nos campos, olhares parados no desperdício dos movimentos de quem passa. Fala-se muito alto para não haver dúvidas, ouve-se a presença pela voz e não interessa o que se conta, apenas ecos da nossa própria história. É preciso falar para calar a dúvida do silêncio. As palavras identificam-nos provisoriamente, espalham a nossa posição antes que se instalem interrogações mudas, uma existência pintada pelos outros. Vou até ao café mais próximo e a vida compadece-me na evidência intencional para que pendemos no acerto do passo. A existência é dotada de uma comicidade directiva que chega a ser triste quando nos pomos a sentir com os outros. Uma regressão imposta para darmos mais um passo, voltar atrás para continuarmos, gargalhada de improviso invocando o possível, desvio que depois deixa de o ser, o cão que passa, o velho que ri, andar eu assim pela rua abaixo em movimentos periféricos que se esbatem numa tela já vista. Tudo é comicamente triste. Cómico na autenticidade, triste na antevisão. O já visto que nos leva à morte negada, paradoxo edificado para um fim enviesado e atirado na explosão dos sentidos. Um sorriso que desmascara uma verdade arrancada de surpresa, a certeza de sermos assim sem sermos a nossa própria causa. Cumprimos a nossa essência em gracejos autênticos e tristes, uma certeza que se torna triste porque confinada à própria evidência. Triste na antevisão, triste no que já sabemos ter fim.

P.A.


segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Um dia


Um dia acabei de ler Álvaro de Campos…

Li-o como quem procura uma sombra de árvore e subtrai à vida algumas horas da sua intensa luz regular. As folhas do livro fizeram-me cortes na consciência, as frases foram o álcool sobre as pequenas feridas.

De manhã, o sol plasmado em marquises como contentores de espera.
Como se não chegasse tenho aceso o candeeiro do topo da cama, tornando o quarto numa segunda realidade.

Levanto-me e sigo os passos anestesiados pela mente onde ainda se mexe Álvaro de Campos. Ponho na prateleira o livro meio tombado de vida e levo lentamente as mãos à cabeça grávida de escrita.

Um dia acabei de ler Álvaro de campos…

O homem engrenado no sentido universalizado de todas as coisas que das artérias da alma se estenderam para ligarem os pólos da máquina do mundo.

Um dia acabei de ler Álvaro de Campos…afinal, ele era engenheiro naval!...

P.A.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Fuga


Saí à rua e não vi
Quem esperava ver,
Afinal fingindo parti
Na alegria de não saber.

Desilusão confortada
Por brincar em mim
Uma força encarcerada
Porque eu à rua não vim.

Saí alegre outrora
Com amigos esperados,
Estarão por isso agora
Também na rua fechados?

P.A.

sábado, 13 de outubro de 2007

Espectro


São todos os caminhos a morte espectral, aprofundando os encargos do corpo quando este se vê com tanta razão de existir como as ervas nulas que assediam o desencanto. Qual o mais vivente entre os viventes se a todos o espectro do desencanto aprofunda na existência que se quer ser, na subsistência alheia e incomunicável lançada pela indefinição de causas? Talvez as pequenas flores do monte sofram mais o seu desconhecimento enraizado do que um corpo o seu tédio volúvel contemplado pelo espírito. As flores assediam, o vento indica, a alma murmura. Não temos mais que breves indicações do ser, como colunas de pedra no deserto a assinalar a nossa presença infantil num universo de dados, sinos cujo eco expande a nossa radicação, setas apontadas ao vácuo dos sentidos ou intenções que se esgotam na espera do fruto visível. A morte espectral colhe-nos enquanto erguemos colunas ou tocamos os sinos para que sejamos sempre nova visão divertida de um palco comum. Não há este ou aquele caminho que certo bem ilumina ou certo mal transvia. Há o término de todos os seres dividido em portais que esgotam a singular vontade de ser, o entardecer que curva numa opacidade de vertigens, há enfim, todos os caminhos que se cumprem pelo próprio compromisso que morre.

P.A.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Presença


A mais sublime noção filosófica intuída é simples e desinteressada, não pelo facto de pertencer ao senso comum ou exigir menos atenção à vida, mas porque se descodifica na inocência flutuante de sentirmos o mundo, de irradiarmos o corpo infantilmente para fora dos caprichos intelectuais, vitalizando-o com o sentido que excede da nossa presença. Antes de tudo estamos presentes na ocasião do olhar, do ouvir, do cheirar a civilização escorrida pelas cidades curvadas, do inalar constante da marcha fúnebre em direcção aos vales sem resposta. A presença é um fogo para onde somos integralmente arremessados como vivas imagens do interior das catedrais.
Escrevo na presença de finas partículas que se movem no momento, os dedos das mãos entreabertos ocupam um espaço único e particular, tocando pensativamente o interior vazio. Escrevo na existência efectiva que sobeja num tempo neutro como um lugar morto. Antes de tudo somos um pensamento de fundo ao adejar da luz, uma respiração inefável que se incorpora na óptica do tempo, meia face iluminada no nulo da janela. Antes de tudo somos uma analogia nostálgica do cosmos quando tudo chega a ser nada como sobreviventes equivocados.
Preciso apenas de ver o mar e escrever quando me apetecer, quando o tempo trespassar a vontade e remover o entulho das reminiscências. De ser apenas e recusar-me às vezes. Beber uma cerveja e entrar no restaurante sem dinheiro, conversarmos sobre o que poderíamos ter feito em vez de comermos pela espera de qualquer sabor diferente. É isto a liberdade, o prazer de recusar o tempo opondo um tempo pessoal, mais sensível ao ritmo cardíaco e às marcas primitivas da existência que recrutamos numa salva de risos espremidos de lágrimas. Preciso apenas de sentir o esperado e o inesperado como uma música de jazz cujas cifras melódicas, rigorosamente soltas, conectam-nos à origem do movimento criador dentro de outro movimento alargado.

P.A