terça-feira, 1 de abril de 2008

Antes das Palavras


A aula terminou infalível. Os apontamentos são a síntese da ideia principal do autor degenerada nas interpretações do professor e dos alunos. Não há questões, as cabeças debruçam-se nas últimas frases captadas para encherem folhas papagueadas e atiradas depois para dentro das pastas apressadas pelo rescaldo das ideias. Escrevi nada. Se algo houvesse que merecesse ser escrito seria o silêncio infiltrado da filosofia, o vazio de sentido emerso em bocados de realidade que se tentam nivelar, porque a razão das palavras é sempre um desequilíbrio a posteriori sedimentado em ideias feitas. A aula esteve distante, viemos tarde para os Deuses, heróis e ninfas numa couraça de conceitos que se estancam no espírito, autómatos das palavras sem o sangue que as configura, atulhámo-nos em signos e não em coisas como hóspedes da terra e da vida, a realidade avoluma-se em explicações compiladas pela obesidade académica ao invés de se alimentar de visões precipitadas por vales fecundos, de vontades activadas nas montanhas do silêncio rarefeito, de vivências desbravadas pelo torpor dos músculos e ligeireza do intelecto.


Intervalo para o cigarro e algumas considerações antes de outra aula. São muitos os livros, os autores, tempo que se gastou a não ler mas a rememorar artefactos e interpretações avulsas que tentam arrancar o autor do seu silêncio primeiro. O mundo sempre já aqui a gastar-se em palavras que são alienações redundantes do hábito de ser, sinais de outras coisas que se apresentam ao espírito balbuciadas pela dúvida essencial, pelo acaso terreno, pela impressão.
Outra aula distante, de repente embarco no discurso, ouço as palavras do professor como uma percussão afagada entre o passado e o possível que desencadeia um conforto de estarmos a viver em simultâneo. O autor escreveu muito, pensou demais, reconcilio-me com seu pensamento entranhado nos nossos dias como o frenesim de comunicação num átrio de gente sem se perceber uma só voz, estranho ruído propagado em rascunho à procura de um sentido, de um mote para nos encontrarmos. São cegos e mudos os encargos do nosso fundamento, abandonados a um cavar lento de causas invertidas até ao centro da terra como crianças que seguram um brinquedo ao contrário. As palavras levam-nos a atenção de ser, desalegram-nos, desentristece-nos, vestem-nos de razões gastas que emolduram o acaso. Basta o silêncio para nos soltar o mais íntimo filamento carnal de interacção com o outro e percebermos uma causa. Antes das palavras estamos nós que também somos uma linguagem permanente que se move com excepção por órgãos, músculos e ossos, a emergir no exterior como ondas de calor, a arrastar a essência pela paisagem imiscuída de opacidade e tons, sem nome, lascada na imperfeição muda que se compensa, só para justificarmos o acaso que somos.

P.A.

domingo, 23 de março de 2008

Espaço e Tempo ( parte II )


Que importância tem estar perdido nesta manhã de ninguém se o sonho se tem retido? Um dia que se vive sem viver pela liberdade de tudo perceber, subir esta e aquela rua, espreitar aquele casebre porque a alma é nua e a vontade é leve. Sentar na fonte com nenhum desejo e o desconhecido defronte sorrindo de ensejo. Que importância tem estar perdido nesta manhã que vem sem que se tenha pedido?

Qual a causa que prevalece sobre o simples existir se ao prazer o viver obedece na tranquilidade de sentir? Quais os limites da vontade e do movimento? Quem acompanha esta verdade e às incertezas está atento? A verdade escorre por alegrias finas, o que é vão lembra o prazer de estar, veja-se os Deuses meninos impávidos a brincar

Que destino aguardado têm na evidência de estar? Pela luz e vento as atenções vêm e com elas a demora de encontrar. Prazer de passear pela estrada, ver as ervas que aí crescem sem campo, aí está também a razão semeada à espera de uma história com encanto. Nenhuma hora é perturbada por Deus quando este é estar e sonhar, correr pelos dias que são seus, ver os Deuses meninos impávidos a brincar.

P.A.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Espaço e Tempo


Não, não sou saudosista, a tecnocracia tanto me assusta e deprime como me encoraja e estimula, vivo-a como o álcool, para consumir moderadamente, é por isso que, de quando em vez, regresso a um espaço intimo e reflexivo como que à procura de uma base sensível para ligar o novo equipamento virtual, uma personagem de “Tudo o Vento Levou” à procura do seu papel no filme “Transformers”

Não, não penso que há 25 anos era melhor que os jovens de hoje, há contudo uma diferença importante, a da marcação do espaço e tempo. Há 25 anos era um jovem mais desmarcado temporal e espacialmente, por isso mais liberto para poder conviver com o curso dos fenómenos sem que me aparecessem na indiferença do nada, improvisando-os numa relação de descoberta interna como uma história infantil, ingénua claro, fantasmagórica claro, preconceituosa claro, tímida por entre uma cadeia de enganos repercutida no espaço e tempo, mas talvez mais humana.

Os pais tecnocratas cuidam dos filhos num controlo mecânico dos diversos movimentos e energias com vista à sua disciplina, manipulação calculada das suas atitudes e gestos, de todo o seu comportamento que não deverá fluir na desordem dos corpos, mas tão somente condensar-se no imediatismo objectivo, que resulte na utilidade e eficácia da sua presença. Por isso, os filhos dos pais tecnocratas têm pouco espaço para fantasiar, sonhar ou recriar, mas antes, estão sujeitos à lei da maquinação com botões que accionam todos os sonhos, rápidos, adultos, que matam mas não entristecem. Não sobem aos telhados aventureiros ou às árvores recatadas, não brincam como no começo do mundo, mas antes, saem de casa na curiosidade da vida programada. Como diria Michel Foucault, importa a localização correcta dos indivíduos, evitando a sua distribuição anárquica e confusa. O espaço disciplinar tende a dividir-se em parcelas objectivas, anulando os efeitos da circulação difusa e descontrolada dos indivíduos. Importa saber onde e como encontrá-los, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, avaliá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades e os méritos. O sistema de controlo vai pouco a pouco aperfeiçoando-se segundo a regra das “ localizações funcionais ”, impõe-se a codificação do espaço que a arquitectura anterior deixava geralmente livre e pronto para vários usos.[1]

Mas a organização dos filhos no espaço implica necessariamente a sua organização no tempo, “ Procura-se também garantir a qualidade do tempo empregado: controlo ininterrupto, pressão dos fiscais, anulação de tudo o que possa perturbar e distrair, trata-se de construir um tempo integralmente útil… ”[2] O controle e a eficácia dos movimentos do corpo no espaço exigem a sua programação ritmada durante um determinado tempo. O tempo surge quase infinitamente fraccionável, em que o uso de cada instante deve ser intensificado na sua utilidade, rapidez e eficácia. O tempo não deve ser passado na procura livre e esforçada de apropriação do mundo, mediante a criação e desenvolvimento de aptidões individuais, mas antes, ser decomposto, subdividido, desarticulado e desdobrando nos seus momentos sob o olhar de quem os controla. O tempo deve ser linearmente preenchido na sua sucessão, através de actividades múltiplas, ordenadas, cronometradas, impondo a sua normalização no aceleramento de uma aprendizagem rápida e eficaz.[3] O tempo útil deverá impor-se ao tempo de maturação, podendo chegar à sua anulação pela falta de tempo.

De repente crescem perplexos para a adolescência de rostos uniformes sem vida encerrados no silêncio dos quartos, de quando em vez levantam o olhar meio desconfiado meio assustado sobre o que o à volta se vai passando, reacção retardada de animal aprisionado que depois regressa ao seu canto pelo mesmo silêncio, sem resgatar uma palavra, um sinal, apenas o agrilhoar dos membros em redor do corpo em movimento fetal. Um dia breve é o despertar para homens de cinzento e azul-escuro confiados em gravatas de última hora, desaguam nos bares mais falados, enxovalham-se na multidão de apertos e abraços e novidades acabadas, “A época do menino satisfeito” segundo Ortega e Gasset, aquele que se basta a si próprio, tão independente que já não consegue viver sem 50 canais de televisão, acha estranho a civilização ter perdido tantos anos a pensar quando agora demora apenas um dia a não pensar aquilo que lhe mandam fazer. “O menino satisfeito” goza de um espectáculo que se consome num só tempo, longínquo de sensações que estalam em antecipação, abismo solene que se assiste de copo na mão.

P.A.


[1] Foucault, Michel “Vigiar e Punir”, Editora Vozes, 1987, pág 123
[2] Ibid., p. 128
[3] Ibid, p.131

sábado, 8 de março de 2008

Dia da Mulher


Brilhante rompe o último coche guiado por negros cavalos que a Vila baptizou. Dentro vai trémula uma Dama de olhar vulnerável como a lua que pela longa noite velou. Os animais lendários estancaram com crinas de fogo oculto, as cabeças elevaram-se, o dia é de tumulto. Por cima do coche as árvores completam a realeza e tombam de incerteza quanto à Dama que pisará a rama no chão ainda coesa. A porta abre-se, espreita a Dama coroada de luz e beija o dia que tanto seduz. Desce lenta do coche pela aba do chapéu e vai cortando leve a brisa com seu véu. A luz parece ingénua de insignificâncias nos intervalos de sombras esquecidas, uma sensação que adquire importância à luz de insignificâncias percebidas. Desce depois a Dama pela Vila apetecível entre outras sensações desejadas, na frescura visível das fontes da vila prolongadas. Um dia sem marcas e mil águas de uma nuvem vil que tão só abarca fontes desejadas por uma visão febril. Não sabe para que lado vai lado a lado com o pensamento, acumula coisas que não vê como sombras de vento. Já a grande sombra cegava seus passos nela contidos, ainda a Dama com a noite voltava e com ela levava seu vulto perdido. Sensação por fim mergulhada em águas que pela sede sobem no prazer disfarçado, entre chorar e rir e uma nuvem de papel, talvez a Dama aí enfim se desvele.

P.A.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Passou


Desci a noite postiça
Pelo jardim de quem passou
No brilho da razão prolixa
E à vigília de casa voltou

O tempo reparte-se puro
Pela ignorância proclamada
De um saber inseguro
E uma verdade amada

A existência é simulacro de razão
Que repousa no amor da morada,
Por vezes passeia pela noite a vocação
Em patamares de luz renovada

P.A.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Vive



Vive a vida. Vive-a na rua
E no silencia da tua biblioteca.
Vive-a com os outros, que são as únicas
pistas que tens para conhecer-te.
Vive a vida nesses bairros pobres
feitos para a droga ou o desespero
e nos tristes palácios dos ricos.
Vive a vida com as suas alegrias
incompreensíveis, com as suas decepções
(quase sempre excessivas) com a sua vertigem.
Vive-a em madrugadas infelizes
ou em manhãs gloriosas, a cavalo
por cidades em ruínas ou por selvas
contaminadas ou por paraísos, sem olhar para trás. Vive a vida.

Luís Alberto de Cuenca “Por Fuertes e Fronteras”



Não há esta ou aquela via por onde o bem ilumina e o mal transvia. Há a existência que é um estado latente de possibilidades direccionáveis, um futuro rasgado e excedente que se acumula invisível pela presença. Há a via única da evidência por onde nos cruzamos sob formas e razões impressas, que crescem em bafejos cúmplices e apelos da espécie. A via única para viver em todos os seus caminhos válidos e eloquentes, viver em tudo o que a vida não nega. Estarmos presentes pelo espanto de quem sente as formas belas e absurdas das árvores que acompanham a vertente em síncopes vistosas e mudas, pelo vinho que vai sendo derramado na via trespassada de sentimento onde existir é estar embriagado e os turvos enganos esquecimento. Presentes na coragem, no medo, no prazer, na dor, de corpo aberto absorvente, de longo olhar fixo de desejos fechados e impossíveis de não presença. Vale por isso ser poeta que em tudo se completa, sonhando o mundo nas telas que não se conhece e que nelas se reconhece entre vidas no cortejo, dormir sem um beijo.

P.A.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Da rua


Vista de uma rua de Lisboa a vida é escassa, tudo e nada perante estrelas do começo do mundo. Calçada de odores que se entranha por frestas e tapumes de bairro, animada por uma esperança retardada de fim do dia, removida nos passos que pisam em esforço paralelos à beira de olhares parados que marcam o tempo às portas da realidade. Na rua nasceram todas as impressões esgrimidas sem rumo certo, encontros e desencontros colectivos, ideias e sentimentos que se dispersam no inumerável dos rostos e no incomensurável do seu espaço. Na rua nasceu a consciência sobre a desordem original, própria dos homens, materializada na vivência e interacção comuns como uma “cantiga da rua”. Nasceu a direcção em que cada um se agrupa e interage por uma individualidade inconstante e imprevisível, ilimitada por paixões, egoísmos, altruísmos, abusos que são a vontade de alimentar o imperfeito. Nasceu também a necessidade de cobrar essa desordem impressa e regular a condição humana, de orientar e preencher a anomalia do espaço e atenuar a ameaça das gentes. É a liberdade da rua que faz pensar, que hoje é tímida e ameaçadora, controlada no seu pulsar ínfimo que outrora gerou experiências e saberes construtivos. Não nasce agora, mas arrasta-se a liberdade como um sonho que se abate sobre uma interrogação finita, resgatada depois à pressa para casulos familiares intermitentes.

Aqui a vida é escassa para além do amor, gozamos dos acontecimentos em intervalos mudos e esquadrinhados ao sabor do destino recatado dos lares. Já é tarde pelas ruas de Lisboa. A noite é escura não se sabe bem porquê e são tantas as incertezas perante certeza tão grande. Apesar de tudo confiamos, lutamos e cansamo-nos para o futuro. Tenho saudades tuas. Vontade que a tua ausência irrigue o meu prazer inconstante. Jantaremos juntos num sítio longe de qualquer previsão, conversaremos de ocorrências vãs que alimentem a nossa importância, numa rua onde se sintam as estrelas do começo do mundo e a sua grandeza seja a nossa presença consciente.

P.A.