sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Onde é que você vai?


Em cada visita que faço ao lar mais me convenço que a vida são restos. - Onde é que você vai? Venha cá menina, está na hora de irmos para cima. Para o quarto não para o céu, bem poderia sê-lo, como quem diz, em nome da terra que já cumpriu o que lhe era pedido. A cadeira do lado vazia, ainda a semana passada ocupada insistentemente por um corpo sedimentado entre braços, removido entretanto para outro mundo porque este deixou de o alimentar. Qual daqueles olhares perplexos será o próximo a sumir-se sem aviso, deixando mais uma cadeira vazia e uma memória colhida para a ocasião que nos confirma a ordem de chegada e de partida. O silêncio da sala convida-me a sentar por momentos, sei que não é um convite mas a razão a implorar-me para não passar ao lado, para não evitar a nossa causa final, não fugir infantilmente à pele negando o que me é próprio. Os velhos desligados, espalhados pela sala em estilhaços consumidos pelo tempo programado. Uma vida honesta, correcta, sem excessos, rectilínea, o fio esticado sem nós e agora, agora no fim tudo emaranhado dos pés à cabeça, aos tropeções, num corpo curvado em ponto de interrogação sobre o que ficou. Os velhos indiferentes a mim, com excepção de um que se agarrou à minha presença com olhar fixo e ligeiro sorriso. Olho-o sem olhar, isto é, olho-o para dentro, dele e de mim, as impressões exteriores já não interessam nesta fase do campeonato, são resíduos redundantes que deixaram de embaraçar. Ali permanecemos no conforto de duas imagens por decifrar. O seu interior como que para mim uma obra sapiente a acenar-me tranquilamente do outro lado da margem, a minha figura como que para ele uma pálida recordação por encaixar. Ali ficámos, cada um alheado no interior do outro. De um lado a máquina cansada que assiste à grande paciência do mundo, do outro, uma peça solta que por instantes caiu sem propósito. Um espelho quebrado pela voz da auxiliar - Meus queridos vamos para cima! Para onde?
P.A.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Terrorismo global, o vazio de coisa nenhuma


O terrorismo global protagonizado pela Al-Qaeda, sofreu e tem vindo a sofrer algumas derrotas significativas com o enfraquecimento de pontos nevrálgicos da sua rede, através da captura ou morte de alguns dos seus líderes. O seu modus operandi tende para uma formatação cada vez menos dependente de uma cadeia de comando hierárquica. Embora funcionando num sistema de células, estas adquirem um envolvimento de grande amplitude e dispersão. Como nos refere António de Sousa Lara[1] “O sistema actual configura um terrorismo de segunda geração, no qual dificilmente vislumbramos uma permanência da lógica hierárquica tradicional. Pelo contrário, as células terroristas são agora suficientemente autocéfalas, estão apenas unidas, numa primeira fase de formação doutrinária e táctica, para depois se isolarem no contexto de uma inserção social participante, dentro da vida habitual de uma determinada comunidade, devendo gerar a sua própria autonomia de complemento de formação táctica, logística e de desempenho geral, uma vez que a definição da sua estratégia é de tal maneira pública que está permanentemente disponível na Internet ou nos noticiários da própria televisão”. Neste sentido o autor acrescenta que muito mais dificilmente se identificará, por exemplo, uma estrutura global da Al-Qaeda, “pela simples razão de que não existe uma sociedade sistémica, administrativa, hierárquica, burocrática, logística, em tal organização terrorista, mas sobretudo, uma “estrutura” segmentada, um ambiente (como nos sistemas operativos dos computadores)…”Trata-se, por isso, em boa parte de uma nova formatação da actuação terrorista e se já era difícil, ao identificar uma célula, reconstituir a hierarquia clandestina tradicional, por maioria de razão, é hoje particularmente mais gravoso e difícil, a partir de um núcleo terrorista actuante, identificar as suas ligações e os seus apoios, uma vez que todo o processo evoluiu para um sistema de natureza dispersiva”[2]

Esta nova formatação remetem-nos para um conjunto de acções que se podem inserir num tipo de violência estrutural, ao contrário da violência directa[3]. Esta, segundo o modo como classicamente é entendida, é desencadeada por actores identificáveis que infligem directamente danos a outros, incluindo-se neste tipo a guerra, a tortura, o crime, ou as acções terroristas. A violência estrutural, decorre de causas inseridas na própria estrutura social, onde é muitas vezes difícil de identificar um autor ou mesmo o início do processo. Dentro deste tipo de violência podem apontar-se, como condições potenciais da sua concretização, a privação de bens elementares de sobrevivência, ou, em outra instância, por exemplo, a privação do direito à educação. A repressão, como perda de várias liberdades, em particular a liberdade de escolha, é também apontada como um subtipo de violência estrutural. A alienação é enumerada como a terceira categoria de violência estrutural, ou seja, a privação de necessidades não materiais que podem conduzir à perda de identidade, forma de violência que está a expandir-se nas sociedades contemporâneas, tanto nas ocidentais como em outras, embora por causas diferentes. “Enquanto forma de violência, a violência estrutural, nas suas diversas modalidades, nomeadamente na de alienação, explica, muitas vezes o surgimento da violência directa, mais especificamente de algumas formas de terrorismo”[4]

Trata-se assim de um campo fértil para a disseminação da propaganda que legitima alguns terrorismos e o recrutamento de apoiantes. As elites e os governos, em relação ao terrorismo, tendem a subestimar a violência estrutural e a centralizar a sua actuação numa resposta ao nível da violência directa. A tentativa sistemática de dar ao terrorismo, em algumas das sua vertentes, respostas exclusivamente militares, numa óptica de que a violência apenas se combate com a violência, já provou não ter resolvido o problema, embora o tenha atenuado em algumas das sua vertentes. Mais difícil, contudo, será atenua-lo actualmente por essa via quando o fenómeno do terrorismo tem um impacto à escala global, e cujas causas são multidimensionais.

A identidade deficitária desenvolve-se em diferentes planos, seja religioso, político, social, económico ou cultural. A ideologia ou crença religiosa como factor justificativo do terrorismo global não parece ser suficiente, sabendo para além disso, ou pelo menos intuindo, que o processo de socialização nas sociedades islâmicas é orientado pela moral da culpa e do castigo. Segundo os estádios de desenvolvimento moral mencionados por Kohlberg, as sociedades islâmicas poderão situar-se num estádio pré-convencional, em que as normas e valores permanecem como realidades exteriores aos próprios indivíduos, criando nos sujeitos como que uma espécie de efeito de automatismo e predestinação, pelo que, dificilmente são vividas e integradas em princípios éticos universais, tal como o direito à liberdade de expressão, direito à justiça proporcional ou, em último caso, direito à vida. Este modelo potencia posições radicais e fundamentalistas, que não obstante serem geralmente diluídas na convivência pacífica dos crentes, tornam-se uma ameaça latente.

Se é verdade que um terrorista não é vulgarmente considerado um psicopata, comporta-se como tal. A perigosidade do fundamentalismo religioso, em particular do terrorismo islâmico, remete-nos para causas criminógenas relacionadas com uma patologia anti-social de tipo psicopata, tipificadora da personalidade dos agentes. Miguel Sanches de Baêna, ao definir diferentes classes de terroristas, considerando a sua posição e influência no seio das organizações, dá particular destaque à classe V, constituída por amadores, civis e sem experiência, como uma das classes mais perigosas e de difícil detecção. A sua faixa etária é abrangente, de ambos os sexos, de nível educacional baixo, estrato social correspondente a uma população urbana ou rural pobre, nascidos no meio do crime ou da cultura do combate
[5]. Isto remete-nos para populações, que dado as infra-estruturas sociais e económicas em que vivem, aliadas a um referencial moral, educativo e afectivo pobres, tornam-se permeáveis à influência e aliciamento de grupos terroristas, traduzindo o seu fácil recrutamento, um meio alternativo de vida para indivíduos que procuram um sentido de pertença não conseguido em estruturas convencionais. Os acontecimentos nos arredores de Paris, em 2006, reflectem um modelo de violência gratuita sem causas aparentemente determinadas, senão a procura e apropriação do mundo pela destruição. O atentado de 11 de Março em Madrid, embora tipificando um acto terrorista indiscriminado, apresenta contornos que o ligam a agentes anteriormente relacionados com o delito comum.

O terrorismo Global, para além do absolutismo divino, visão maniqueísta, expansão pela jihâd ou fé actuante, crise identificativa de um modelo fechado que se forma contra os outros, interage com uma patologia anti-social ou psicopática, que pode reunir energias nas populações desenraizadas dos aglomerados urbanos e desnutridos de quase tudo, ligadas a meios marginais e delinquentes como consequência lógica, cuja violência surge como um modo de apropriação do mundo que de outra maneira não é conseguido. Na personalidade anti-social, a passagem ao acto é um hábito que toma o lugar da reflexão, da emoção e dos projectos. Forma-se numa moralidade simplista destituída de emoções ou sentimentos, é uma ética solitária, que não pede nem dá, é pragmática e encurtada pela impulsividade do acto. O mundo é entendido como uma resistência permanente, o qual, numa relação meramente instrumental, pode ser violentamente fundado no seu nada. Parece ser neste espírito de missão, sem comando, de ímpeto espontâneo e voluntarista, que se configura a ameaça do terrorismo global. A jihâd, como esforço ou luta no caminho de Deus, pode identificar-se como um movimento permanente contra o sistema global estabelecido, persistente nas suas acções, anárquico nos meios, incapazes nos seus objectivos últimos, fundados num idealismo inacessível e utópico.

P.A.



[1] Lara, António de Sousa, “O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente”, Almedina, Fev.2007, pág. 44-45
[2] Ibid. Pág. 45
[3] Simões, Maria João, citando Cassese e Galtung in “Terrorismo(s) e usos das tecnologias da informação e da Comunicação” Cap. XI da obra “Terrorismo”, Coord Adriano Moreira, pág. 509
[4] Ibid pág. 510
[5] Baêna, Miguel Sanches, “Nos Bastidores do Terrorismo”, “As Teias do Terror” “Novas ameaças globais”, 2006 pág. 131-132

sábado, 23 de maio de 2009

Presença (parte III)


Disse que a presença é o concreto da existência. Não um pensamento mas uma noção que se deduz do universal ao facto de se estar a ser, um instante que se retém e se configura num ponto do mapa geral da mente. Não um pensamento mas um sentimento que se percorre num só tiro, num só gesto, num só suspiro. Não um pensamento mas uma evidência que se assola na consciência e suspende o fluxo regular das coisas. Não um pensamento mas uma certeza que aparece a fitar interiormente os despojos de um corpo relembrado. O espanto de sentir o eu perante a carga de todas as possibilidades, plantado na exactidão de um corpo gratuito que vibra na diferença das formas como a árvore que carrega a existência em síncopes tensas e mudas. Presença, estar a ser, quando brindamos na única via ladeada de pequenos marcos, pequenas consolações de vinho derramado, impressões maciças do bem e do mal confundidas num rosto vidrado. Uma só via um só viver, é esta a verdade, efémera e arrepiante no olhar fixo, estranha certeza ser-se visto, ser eu e os outros que sempre somos nós nos passos que damos enquanto sós. É a via da presença que nos resta, pálida ou eloquente, como o vinho trespassado de sentimento onde existir é estar embriagado e os turvos enganos esquecimento. A verdade que não se pensa, existe sem poder desdizer um caminho por acontecer e o erro dispensa. Estar presente e reconhecido no silêncio da estrada que se agudiza no horizonte por fazer, não há vida desencontrada nem caminhos perdidos, é tudo o que vai sendo e engrandece o sabor do espírito em gume, sob a luz diurna do costume ou no negativo que construímos sobre uma causa nocturna. O corpo pendular que marca os medos em suspenso pelo eu que sempre mente ao medo evidente de estar, ao medo das coisas vidente.

P.A.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O tempo consultado


A compreensão da narrativa individual insere-se num esquema explicativo que, conforme nos diz Cândido da Agra “faz intervir o tempo ou história individual e colectiva, na explicação criminológica. E fê-lo intervir nos sistemas de interacção estabelecidos entre o indivíduo e as suas circunstâncias psicológicas, sociais e culturais. É às formas de vida (ou sistemas de estilos de vida) constituídas ao longo de trajectória existencial dum sujeito mergulhado e confrontado com múltiplas normatividades e seu desenrolar, que se dirige o olhar criminológico. E isso aos níveis psicológico e psicossocial: uma biopsicossociologia não causal mas processual constitui uma das principais “revoluções científicas” (nos termos de Th.S. Kuhn) da criminologia moderna”. 1

[1] Agra, Cândido da e Matos, Ana Paula “Trajectórias desviantes”, droga – crime, Estudos interdisciplinares, Gabinete de Planeamento e de Coordenação do Combate à Droga


Há o silêncio da sala, uma espera silenciada por um barulho de fundo contínuo que vem do ar condicionado. Um consultório que isola uma longa tarde de Agosto, quase hermético, em que apenas os passos esporádicos dos pacientes sobre o soalho ressequido despertam a impressão de se estar vivo, porque mudos são os encargos do nosso fundamento como um cavar lento de causas invertidas até ao modo de ser. É um consultório do tempo, ou antes, da sucessão de acontecimentos que informam e preenchem o contínuo temporal. Antes da derradeira consulta temos tempo para recordar e antecipar os factos, melhor dizendo, para encontrar a sua significação projectada no desenrolar dos dias e dos anos entre o passado e o possível, como a árvore que lá fora se tenta enquadrar pela janela que é a nossa perspectiva limitada e sumária da realidade, dando-lhe um sentido para além do facto de ser. A consulta está atrasada, a espera pelo silêncio torna-se ensurdecedora, deixa-nos vazios de conteúdo vital, arrepanha-nos os ossos e os músculos no desconforto do nada, e assim agarramo-nos a qualquer coisa que interpele o silêncio, como uma porta que se abre sem motivo aparente. É outro paciente do tempo, entra cauteloso na sala e dobra-se numa cadeira inerte a fitar as linhas da parede nua. Quatro paredes que confinam o olhar mais distante, induzindo-o à introspecção do espaço e depois do tempo. Não tardará a agitação cansada do vazio concreto da sala, instalando-se o exercício de abstracção como desenhos imaginários no branco das paredes. Passa-se da atenção sobrevivente dos sentidos para uma viagem interna e explicativa que faz intervir o tempo ou a história individual na compreensão dos factos. E fá-lo intervir nas redes de interacção estabelecidas entre o sujeito a as suas circunstâncias psicológicas, sociais e culturais, confrontando-o com o desenrolar de múltiplas formas de vida, mais abertas ou fechadas, mas sempre subjugadas à inalienável condição de se assumir e explicitar numa trajectória única e intransmissível. A sala encheu-se de pacientes, as consultas preparam-se em cada um deles pela narrativa dos gestos e todos parecem permanecer ligados à importância do momento, mais do que o aceitarem, distendem-no na sua significação alargada a cada história pessoal. A existência conta-se normalmente por palavras gastas na preferência da nossa compreensão, desligada da importância sobre a qualidade das relações que cada indivíduo estabelece com o meio, reduzindo-se por isso a uma acção unidireccional do meio sobre o indivíduo, decorrendo muitas vezes petrificada pela defesa, cautela, orgulho e desvalor da responsabilidade do ser no mundo. Meteram-nos neste baralho, é certo, mas mais do que o aceitar e controlar à distância, é preciso realizá-lo e compreende-lo pela narrativa pessoal que é o processo existencial de um sujeito mergulhado e confrontado com múltiplas formas de vida. Atrasa-se a consulta contra a visão repetida do nu das paredes, talvez já não seja necessária porque o tempo de espera adquiriu entretanto a importância de um exame introspectivo sobre o processo de existir, fazendo intervir os acontecimentos e a procura do seu significado ao longo da trajectória existencial, acedendo ao processo de cruzamento entre as diferentes dimensões do agir humano, tanto a nível biológico como psicológico e social. Lá fora a intensidade dos sons chega-nos sem aviso e deixa-nos sem rasto, vibram por momentos num contínuo temporal que é a marca de acontecerem, a consumação de uma presença. É no tempo que os acontecimentos ressoam em significados adquiridos e se expandem num leque de possibilidades assumidas pelo sujeito que os vive. Não se trata de procurar as causas do comportamento humano mas, através da biografia, situar os acontecimentos e compreende-los numa perspectiva abrangente, que parta da combinação íntima entre valores colectivos e atitudes individuais. As causas pouco importam, diluem-se no tempo como um processo multifacetado de acontecimentos que concorrem para a emergência de determinados comportamentos. A procura das causas afasta-nos do processo de mudança pelo qual nos compreendemos como seres verdadeiramente indeterminados.

P.A.


sábado, 31 de janeiro de 2009

Coisas em que acredito


Acredito na alma leve como um sopro, vontade ampla fugidia que tem esta forma sem forma que a torna, causa que prevalece longe do simples existir cujo prazer o viver obedece na tranquilidade de sentir. Acredito no princípio escondido do movimento que acompanha esta verdade e às incertezas está atento, no destino aguardado das coisas pela evidência de estar, nas atenções que pela luz e o vento vêm na demora de amar. Acredito no vento que pára à beira da estrada de escuro traje e meros trevos soprando, sem estribos faz sua cavalgada pela estrada não receando. Acredito na importância de se estar perdido numa manhã de ninguém quando o sonho se tem retido, nos dias que se vivem sem viver senão pelo desejo de os entender, de se estar perdido numa manhã que vem sem que se tenha pedido. Acredito na fúria de Neptuno que rompe arestas provisórias de uma câmara lapidada até à primeira praia do farol prometido, com honras de fogo na terra recebido a cambalear pela embriaguez da memória, chamas mundanas por demais ilusórias perante destroços de uma câmara em ondas irrisórias. Acredito nos escombros da liberdade até à última pedra, na imposição assumida de vontade que nasce pela livre dependência. Acredito na noite e uma salva de mistérios, reza que a lua sustém a todos os impérios, orações que estalam pela viagem do silêncio e guardam instantes num só tiro, noite que medita pelo grande véu universal enquanto o espírito se acende e apaga num sentimento final. Acredito que me levem de bruços até sobre minha cruz para falarmos do que não fomos por amor a esta chegada, amortecendo a dor do afastamento antes da morte encetada, que me deixem sem ruído pelo andar lento que passe por trás esquecido do ser atento, atento ao mistério que não vejo de todas as forças escutar confinando-as de incerteza. Acredito outra vez na noite e nos declives do inesperado, na evidência do medo que antecipa as coisas em segredo, no andar que sempre mente ao medo evidente de estar. Acredito no céu longe mas vivo de quem dele é cativo, a quem pela fé pertence e as areias vence, céu vivo ainda mais vivo a quem dele é cativo e que por norma não mente senão quando por ele passa o homem cadente. Acredito nesse canto invisivelmente espalhado pelos momentos em que me levanto querendo estar deitado, que pairam pelo quarto prazeres calmos de ensejo que pelos sentidos reparto e no sossego desejo, na renovação dos ciclos da mente saturada onde irão passar instantes da vida não acordada, na indecisão de deitar-me ou continuar ao sabor do canto na longa pauta. Acredito nas nuvens como janelas carregadas de paisagens que fogem do que vemos, que correm paradas como náuseas regressadas de uma vida encaixotada, na tempestade onde se esconde uma ideia sem tino e rompe molhadas amarras do destino. Acredito que saem dois olhos num sono entre fumos perdido em noite calma, deixam o corpo e sem ossos se põem a brincar, que quando dormir é um peso preferível é sonhar, corpo subtil que espera por tão grande divertimento para com eles voltar, olhos ainda cegos de sonhos quentes que se juntam como estranhos entes, ao recebe-los o corpo exala fumos como ferro em brasa sobre madeira dos túmulos. Acredito que Lisboa dorme levemente num canto do cais onde recupera a mente de antigos sonhos irreais, lembra com as portas abertas ainda um sonho quente das descobertas, bom seria se os olhos abrisse e sorrisse às águas do Tejo. Acredito na lua de ceda que ilumina a vereda por um trago de água ardente, que destrói esquinas e mentes cheias duras rimas e outras teias. Acredito que ela é linda com odes a bailar no coração a pulsar pela tarde finda, linda no espírito nu com corpo de sereia pela noite bem vinda, bela pelas cores do andar e leveza de estar em divina tela, que é minha pelo vento que bate todo o momento como uma razão despida e por meu sangue caminha. Acredito que os olhos baços se enchem com coisas viris, de inocência e pura raiz, de disparates e conceitos sobre desmontar o espírito e despir os eleitos, no arqueiro travesso que lança flechas pelo ar sem preço, pinta as horas sem estimação, considera sem consideração os vermes da guerra e a morte sem fundo como a primeira resposta ao mundo. Acredito que baloiçam hastes súbitas e abanam minutos de vento num único tempo, sopram ideias loucas e vontades roucas, que em tudo uma hora se perde num esforço de viver um dia que não serve as coisas que sem ele teria. Acredito no descalabro do tempo que se embaralha ao acaso em fios vitais, no corpo entregue a um estilhaço sem ordem nem sabor, na revolta da terra e no calor que o ser encerra, nos que espalham fogo e invocam dias em vão como um jogo de luz e emoção. Acredito que tudo em nós começa como folhas brancas por escrever, começo não revelado sem sentido pela escrita contornado em dia renascido, na herança dos dias vividos, naquilo que nos confessa reflexos desconhecidos do que em nós começa. Acredito nos que vestem o desígnio louco num amontoado de gracejos, num mundo alado e absorto de infinitos festejos, nos que acarretam a fantasia manifesta e descem a vertente que resta, na realidade solta dos últimos intentos envolta em pálidos ligamentos. Acredito que o ódio rasteja em mentes sossegadas como a paz transviada e migalhas de guerra, que crescem genes em campo de batalha e tombam da muralha como crianças feridas. Acredito que há no extenso jardim simples matéria acordada pela luz falada entre não e sim, no ânimo que ocorre sem fim e contorna suposto jardim pelo prazer velado, que por fim ao jardim sem luz regresso mais perto dos sentidos que outra realidade produz. Acredito na matéria em vez de nada, no fuso inteligente entre galáxias para nossa tristeza ciente, cúpula branca iluminada que contempla por um só gesto um sonho que vem de fora, matéria que é a morada dos homens e tudo o que sinto porque o que é arde-me de ser e não é nada, por isso que sou e consinto. Acredito em tudo isto e na possibilidade de nada ser.

P.A.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Passos de Inverno


Rezam aves sobre crateras
E ondas do mar se levantam,
Repetem-se passos e quimeras
Que a lama e chuva arrancam

O céu farto súbito escurece
E trás a lama à nossa memória,
A ideia que a chuva padece
Sem corpo ou alma acessória.

O que trás e leva a enxurrada
Se os mesmos passos de levantam?
Rasga-se uma página borratada,
Outra que a lama e chuva arrancam

P.A.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Aquando das doze badaladas


O próprio facto de sermos prova tudo” – Fernando Pessoa

Aquando da euforia nostálgica das doze badaladas, dos apertos e abraços produzidos no momento e mais palavras turvas de engano e esquecimento, retenham esta frase, comam-na nos desejos das passas, enrolem-na à cabeça e morram por ela se for preciso. Parece ser o único facto que nos resta, uma determinação irredutível sobre os fundamentos da existência que atesta a nossa condição em qualquer parte do mundo, perante qualquer juiz de ocasião. Quero dizer que li Fernando Pessoa quando tinha 19 anos, sem nada perceber de Fernando Pessoa, sem nada perceber de literatura ou mesmo de finanças e com uma biblioteca pessoal quase reduzida exclusivamente aos seus livros. Li Fernando Pessoa num tempo único, de uma só vez, sem pausas, por vezes à pressa, nos autocarros, nos comboios, esquecido dentro do próprio carro abafado por sentimentos que se consumiam em catadupa como chamas de fósforos. Li-o obsessivamente enquanto me descobria aos tropeções por versos e prosas flamejantes que me trespassavam sem aviso, arrastando-me depois para um território usurpado no hábito de ser, antecipando uma razão maior que iria inquietar-me para sempre com a essência das coisas. Não, não sou crítico de Fernando Pessoa, talvez queira continuar a perceber coisa nenhuma sobre Fernando Pessoa, como disse, li todos os seus livros quanto tinha 19 anos, à mesa, pelos cantos, ora como um adolescente irrequieto no seu próprio corpo, ora prostrado no silêncio antigo e pesado da noite, em que os olhos vermelhos ardentes chegaram a encovar-se de lágrimas como um velho ancorado no seu passado. Não, não sou especialista em Fernando Pessoa, se querem saber, nunca mais regressei à sua obra, ali ficou alinhada numa prateleira da memória a que ainda não consegui aceder com receio de estragar a inquietação dos 19 anos de idade, de não resistir à tentação de a julgar no presente, armado em leitor experiente, já sem aquelas ferramentas indispensáveis à compreensão do mundo, como a ingenuidade, a inocência, a destreza mental e capacidade de espanto para entrar no reino das crianças, a fluidez patética do espírito imberbe, ou a noção clara de que “O próprio facto de sermos prova tudo” Ali ficou, intacta, para brincar mais tarde quando tiver outro tino. Por agora chega, páginas e páginas desmontadas a custo, com violência, palavras espalhadas pelo chão, frases inteiras transportadas à socapa para a rua, para casa dos amigos, sentimentos esquecidos no tampo da cadeira para recuperar depois já em desespero quando queria mostrar a razão de ser. Por agora chega, fica para mais tarde quando souber o que custa a vida, quando der valor às coisas. Talvez seja por isso que nunca regressei à sua obra, não sei o que custa a vida e o valor das coisas é relativo, continuo a ser uma criança inquieta com medo de estragar o brinquedo que os pais me deram, neste caso, que o poeta me deu.

P.A.