quarta-feira, 17 de março de 2010

Não sabia que eras tu, amor...


Hoje escrevo sobre ti, para ti, de ti, sobre a mulher como elemento natural e fonte de todos os prazeres, mas também de algumas desilusões, sejamos realistas, que pela necessidade de justificar todas as insuficiências do homem, por ele esperou decidida a faze-lo pensar na importância da mulher, o único elemento capaz de o fazer embarcar na mais profunda aventura da alma. O único elemento capaz de ser e não ser em simultâneo, não sendo defeito, mas riqueza. O único elemento capaz de felicidade extrema mas também de angustias desmedidas. O único elemento capaz de dar sentido ou de o tirar a tudo num ápice. Na verdade tenho-me sentido só, só mas acompanhado pelas insuficiências de um homem perante o majestoso palácio feminino, sempre desconhecido, sempre fantástico. Pergunto-te qual o sentido da cidade? Quando esmoreces na terra de ninguém. Qual o prazer da refeição? Quando no silêncio mecânico dos gestos te absorves de interrogações. Qual a novidade da viagem? Quando a incerteza te contamina o sonho de prudências retardadas. Qual a necessidade de cumprir deveres? Quando a razão não te reconhece nesta lógica de responsabilidade. Qual a força do amor? Quando por fim te afastas pela luz baça da manhã. Qual a importância da casa? Quando moramos separados por uma porta intrusa. Qual a razão das palavras? Quando o seu significado gasto e redundante te emudece a esperança. Qual a felicidade do encontro? Quando tão próximo te perdes sem explicações ou intimidades. Qual o sentido de tudo isto? Quando por fim, talvez nunca te tenha reconhecido em mim, nunca te tenha descoberto enquanto calma passeavas segura até ao fim do pontão. Amor, não sabia que merecias o mar como a certeza das formas mais puras encarnadas na beleza abandonada dos teus seios. Que merecias o ar como a explanação da corporeidade delirante e o sopro da alma reservada. Que merecias dádivas sucessivas de generosidade na ânsia de existires. Amor não sabia que eras tu…

Nunca percebi que crescíamos juntos e incompletos para no fim esperarmos alguns frutos, breves que fossem, mas que dariam para justificar esta empreitada desmedida e imprevisível. Nunca levei a sério a relação com os outros, descurei responsabilidades, afectos, sentimentos, tudo nunca passou de um acto informal, fora de horas, meio renitente por trás de um olhar distante e um corpo inquieto. Tudo nunca passou de uma fantasia, por vezes cruel e gratuita, a cobrar-me restos de felicidade enquanto desprovido me segurava a outro mundo, idealmente impossível. Tudo nunca passou de uma grande encenação a resistir-me à compreensão, a acenar-me da outra margem num sorriso por decifrar e uma quietude expectante. Não entendi as motivações que te acalentavam os dias repetidos, onde estavam? Escondeste-as? Eram só tuas, talvez, segredos não partilháveis à luz do dia, reservas de infância tão delicadas como o primeiro amor, expectativas e outros tantos ideias que tentavas encaixar a propósito de nós, no silêncio paciente e mordaz de quem prepara uma revolução. Não detectei qualquer movimentação suspeita, nem sequer imaginei que pudesse haver objectivo para tal. Não sabia que eras tu, amor. Terei sido eu a esconder-me? Por vezes a espreitar-te para observar os teus passos finitos, e aparecer depois no teu caminho já sem sentido de nos vermos no mesmo jogo que só agora entendi as regras. Não sei. És uma dádiva intemporal como a nossa lembrança risonha. Uma presença única, sedimentada numa grande causa oculta, real e intransmissível, que percorre uma essência de todo desconhecida, de que vamos dando conta pela intencionalidade dos gestos. Agora já não sei. És um pálido desejo, amorfo, desgraçado, uma natureza que subsiste no clamor dos espaços infinitos como um papel amarfanhado, um invólucro que se perde no vento sem tino ou emoção.

Na verdade nunca tenho muito tempo disponível e o que sobra deixa sempre a sensação que não consigo geri-lo da melhor maneira. Existe sempre tempo para ti, mesmo que não estejas presente, preenches-me toda a minha ausência, a minha angústia, o vazio do olhar que não acompanha o ritmo alucinante de outro tempo que escapa por entre a imposição estúpida dos deveres e as desatenções mergulhadas em caprichos pessoais. É o tempo dos que ficam, dos que partem, dos que adoecem, dos que morrem, tudo num só tempo que se apaga do quadro sem aviso prévio. Desculpa, hoje estou demasiadamente sensível, chego a pensar que a morte pode ser um facto tranquilo, consolador, uma fuga eterna para lá deste percurso penoso que não garante senão o avolumar lento de outro fim. Sabes que uma das razões porque gosto muito de ti é a lucidez e a profundidade com que sentes aquilo que digo. Chego a pensar que o tempo que me resta será dispendido a escrever para ti, é tudo que te posso dar, palavras filtradas do sangue por sentimentos infindáveis, frases interpostas em dois rostos que partilham a certeza de se entenderem no silêncio. Hoje sinto-me assim, um cão abandonado que estanca o focinho a cada passo para procurar algo que o conforte. Para mim os animais são todos cães, penso sempre em cães para me ajudar a compreender o que se passa no fundo de nós. “Cão como nós”, um livro muito giro de Manuel Alegre. “Amor cão”, belo filme. A balada da praia dos cães, não li, é pena, ou seja, é osso. Até me apetece chorar, será esta, porventura, a única vantagem que temos sobre os cães, verter lágrimas que desmascaram o nosso vazio. Não sabia que eras tu amor…


P.A.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Segurança Estrutural


Perante o terrorismo global, como uma ameaça em curso que contraria a prossecução dos fins do Estado, causadora de danos materiais e morais, é exigida uma resposta igualmente global que minimize os seus riscos. Neste âmbito, não se pode abordar o fenómeno do terrorismo global sem considerar a sua estreita relação com o crime organizado, com as organizações de carácter transnacional que, através do branqueamento de dinheiro e do tráfico ilegal de pessoas, drogas e armas, fazem negócios que superam muitas vezes o produto interno de alguns Países. Da convergência entre o terrorismo global e o crime organizado, ambos os sectores saem beneficiados. Enquanto os grupos terroristas têm acesso a dinheiro, pessoal mais qualificado, a novas tecnologias e armamento diversificado, o crime organizado beneficia do clima de instabilidade criado pelos terroristas para levar a cabo as suas acções ilegais. Estas acções são transversais a todos os domínios da vida social de um Estado, pelo que, o ideal securitário, longe de se constituir apenas como um conjunto de acções ofensivas capazes de dar resposta a um ataque, no sentido de o evitar, ou de actuarem após os factos consumados, deve abranger um conjunto de medidas preventivas que integrem as estruturas do Estado, desde o simples cidadão ao governante máximo. A segurança é efectivamente uma necessidade de qualquer Estado, sendo não apenas um dos seus elementos constituintes, mas também aquele, através do qual, o próprio Estado conserva a sua soberania e autonomia, logo, a sua continuidade. O conceito de segurança e defesa nacionais exige na actualidade, o estudo de uma vasta área de factores e actores intervenientes, quer a nível interno como externo, sendo esta própria divisão, desde há muito, alvo de revisão estratégica no sentido do seu esbatimento como resposta a um novo espaço de interacção.
A segurança estrutural pode ser definida como um conjunto de medidas adoptadas por um determinado Estado ou Nação, transversais a todos os domínios da vida social, e não só no domínio da defesa militar, com vista à protecção e manutenção dos fins para que foi criado, ou seja, para além da sua integridade, o exercício da Justiça e a promoção de bem estar face às novas ameaças. A este propósito, José Leandro, num artigo da revista Segurança e Defesa, refere, na sequência da ideia de que o Estado tradicional é esmagado e atravessado pelas forças transnacionais da economia, das finanças, da cultura, do desporto, do terror e do crime organizado, que: “ A segurança já não é um dado adquirido em nenhuma parte do globo e deve ser trabalhada e garantida por todos, todos os dias, a Defesa já não pode ser isolada, ela é apenas uma parte da grande segurança que a todos diz respeito…”[1]

A questão da segurança estrutural está, de resto, há muito consagrada e prevista, no caso de Portugal, no artigo 276 da Constituição da República Portuguesa, intitulado ( Defesa da Pátria, serviço militar e serviço cívico ), quando no seu ponto 1. refere; “ A defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses”. No número 3. do mesmo artigo, prossegue dizendo; “ Os cidadãos sujeitos por lei à prestação do serviço militar e que forem considerados inaptos para o serviço militar armado prestarão serviço militar não armado ou serviço cívico adequado à sua situação”. Embora inserido no âmbito da defesa nacional, tais enunciados remetem para o dever dos cidadãos, fora daquele âmbito, cumprirem, de modo complementar, com a obrigação de prestarem tarefas defensivas na esfera cívica. Tal pressupõe que, embora não estando directamente envolvidos na defesa nacional, a própria condição de cidadãos exige o exercício de tal tarefa. Este pressuposto, por sua vez, faz derivar da obrigação de defendermos, e de modo complementar, a obrigação de zelarmos pela segurança na esfera cívica.

Historicamente a segurança nunca se limitou aos aspectos militares. As guerras Púnicas, bem como outras campanhas da Antiguidade, como por exemplo as guerras do Peloponeso, revelam um conjunto de acções estratégicas utilizadas, desde a diplomática, passando pela económica e psicológica, até à militar[2].
Estas estratégias foram levadas a efeito em diferentes áreas geográficas, podendo falar-se na existência de diferentes fronteiras onde as campanhas actuavam; fronteira política fronteira económica, fronteira psicológica e fronteira militar. A necessidade de segurança aparece estreitamente ligada à noção de fronteira, delimitando esta, o espaço primitivo ou original onde as sociedades se organizam para desenvolverem os seus objectivos comuns, isto é, o território. O território tem assim um significado fundamental na organização e desenvolvimento das sociedades politicamente organizadas. Apenas considerando a defesa do território no aspecto estritamente militar, a história revela-nos a importância que a mesma seja efectuada o mais longe possível dos locais onde se encontram as populações, protegendo-as dos malefícios da guerra. Hoje, esta realidade é visível nos mais diversos conflitos internacionais, bastando invocar as diversas missões militares destacadas para os cenários mais distantes, sabendo que a sua actuação tem frequentemente implícita, a necessidade de salvaguarda de outros interesses estratégicos, sejam políticos, económicos, comerciais ou de aliança diplomática. Como recorda o General Loureiro dos Santos “ Durante Longos séculos, a fronteira política de Portugal situava-se em Roma, tal como hoje se localiza em Bruxelas ou Washington, passando por Madrid. As fronteiras económicas percorriam o mundo inteiro, desde Madrid a Sevilha, passando por Antuérpia, e deslocando-se para as áreas mais remotas onde o nosso comércio se efectuava. Em termos psicológicos, também tivemos fronteiras em todos os espaços geográficos por onde Portugal se derramou, cuja ponta de lança era representada pela Igreja Católica, nomeadamente, pelos seus missionários”[3]

Se por um lado, o território delimitado pelas fronteiras originais se apresenta como o último reduto a ser defendido até às últimas consequências, certo é, que as raízes históricas da sua defesa num âmbito alargado de estratégias conjuntas para além fronteiras, atinge no quadro actual das relações internacionais e interdependência entre Estados, uma importância e complexidade inalienáveis.

Antes de explanarmos de modo mais concreto a noção de segurança estrutural, importa retomar o conceito de segurança colectiva que se formou antes e durante a guerra de 1914-18. Como reacção à aliança dos Estados que se unem contra um eventual agressor, a segurança colectiva procura um sistema global que funcione a favor de todos e que reaja contra qualquer agressão considerada injusta em face do direito internacional. A Sociedade das Nações foi anunciada num dos célebres 14 pontos do Presidente Wilson, e veio a ser a primeira grande expressão da segurança colectiva. É notório que a preocupação principal era delimitar o recurso à guerra por parte dos Estados, submetendo estes aos imperativos do direito internacional. Neste contexto, o artigo 11 do pacto da Sociedade das Nações, referia o seguinte; “ É expressamente declarado que toda a guerra ou ameaça de guerra, quer afecte ou não directamente um membro da Sociedade, interessa à sociedade no seu todo, e que esta deve tomar as medidas apropriadas para salvaguardar a paz das nações”. Acrescenta ainda o seguinte; “ Fica também estabelecido que qualquer membro da Sociedade tem o direito de chamar a atenção da Assembleia e do Conselho para qualquer facto susceptível de afectar as relações internacionais e que ameace perturbar a paz e o bom entendimento entre as nações de que a paz depende”. A consciência sobre a necessidade de regular a actuação dos Estados no domínio militar, foi sendo, de modo subsequente, alargada a outros domínios, através do surgimento de inúmeras organizações internacionais, tanto no âmbito do Comércio, como da Saúde, da Cultura ou das ciências.

Como já vimos, um dos fins essenciais do Estado é o de assegurar a defesa e segurança do País. O facto é, que a prossecução deste objectivo, no contexto actual de aceleração de novos poderes à escala nacional, mas sobretudo à escala internacional, tem permanecido num espaço dividido entre uma necessidade inalienável e uma tendência efectiva que se traduz, por um lado, na subordinação à superpotência militar dos EUA, e a pressão exercida pela opinião pública quanto à desconfiança de investimentos avultados na defesa num clima pós guerra fria.

Nesta perspectiva, e independentemente dos regimes mais ou menos autoritários que presidiam aos respectivos Estados, eram estes que protagonizavam as prioridades de actuação e consequente decisão no âmbito da política externa, neste caso, no campo militar. A crise do Estado soberano e subsequente emergência do poder da sociedade civil, veio reduzir em muito a margem de manobra do poder decisório do Estado, mais preocupado em conseguir consensos e cativar a opinião pública e o eleitorado, do que defender princípios e estratégias nacionais a longo prazo. Este facto, torna-se mais agudo quando nos confrontamos com um conjunto de novas ameaças transnacionais, com implicações directas para a segurança dos próprios Estados, obrigando estes a rever novas estratégias de defesa e segurança num novo contexto de insegurança mundial. Tomemos como exemplo o caso português pelo documento intitulado “Conceito Estratégico de Defesa Nacional” - Resolução do Conselho de Ministros nº. 6/2003, no qual é definido um vasto conjunto de missões e capacidades das forças armadas, em articulação com as forças de segurança interna, cuja concretização é no mínimo questionável em relação ao esforço real de adequação e investimento que temos vindo a fazer nesta área.

Assim, o poder do Estado em matéria de segurança, deriva de um conjunto de circunstâncias e tendências, tanto actuais como num passado recente, à escala nacional e internacional, tornando-o aparentemente num poder volátil e indefinido, funcionando muitas vezes por impulsos de carácter provisório e condicionado. A redefinição do objecto da defesa por parte dos Estados no período pós guerra-fria, a canalização de energias para outros sectores de investimento como a economia, tecnologias de informação, saúde e outros, a dependência militar em relação aos EUA, a crescente pressão e intervenção da opinião pública, mais ou menos qualificada, alertando para o desgaste e malefícios da guerra, são alguns dos pontos que balizam a posição e poder do Estado. De modo subsequente, e digamos, em sentido inverso, a confrontação com um mundo cada vez mais incerto e perigoso. Conforme refere o Professor Adriano Moreira, “O quadro da pacificação mundial não é animador, acontecendo que se diminuíram estatisticamente os conflitos armados entre Estados, é todavia crescente o número de conflitos dentro dos Estados. Esta observação será talvez mais exacta se tivermos em conta que decorre da velha classificação de conflitos armados, hoje de duvidosa utilidade porque todos os conflitos internos conhecidos têm repercussões ou são efeito, ao menos parcial, de circunstâncias internacionais”.[4] A esta conjuntura, e para agravar o cenário, devem acrescentar-se as chamadas novas ameaças, das quais destacaria o terrorismo e criminalidade organizada transnacionais.

A fim de retomarmos o assunto da segurança estrutural, importa lembrar que um dos fins do estado é garantir o bem-estar das populações. Mas o bem-estar das populações depende, em larga medida, de um conjunto de factores societários que vão para além da esfera militar ou das forças de segurança interna, embora com elas se possam relacionar de modo mais ou menos directo. Seguindo a linha de pensamento que temos vindo a traçar, a emergência da vida cívica e privada, tanto através da participação cada vez mais activa da opinião pública, como da criação e desenvolvimento de empresas multinacionais e organizações não governamentais, assim como a crescente complexidade das relações internacionais, condicionam o exercício da estratégia governativa em termos de defesa e segurança, exigindo deste uma estratégia integral que contemple outros actores e campos de intervenção. Neste contexto, afigura-se ainda menos exacto separar segurança militar ( ameaças externas ) da segurança interna e da segurança ( protecção ) civil. Estas áreas sobrepõem-se e tudo deve ser concebido, estruturado e planeado de modo integrado ao nível da estratégia total, desde o topo do Estado, prosseguindo para o planeamento e execução, ao nível da autarquia, da empresa, da escola, do hospital, das estradas, dos portos e aeroportos, complexos desportivos, até se chegar ao cidadão[5].

Considerando a defesa externa e segurança interna de um Estado como uma campo de actuação interligado e interdependente por parte das forças directamente responsáveis, quer militares, quer de segurança pública, existe, todo um potencial estratégico que é definido como “o conjunto das forças materiais e morais de qualquer natureza que um Estado ou coligação pode utilizar na sua acção estratégica”[6]
No que se refere à segurança e defesa de um Estado a Estratégia a adoptar deve ser então uma estratégia integrada, que contemple diversas estratégias especializadas, correspondendo a cada uma delas um domínio particular de actuação.

A defesa e segurança de uma Estado definem-se por uma acção global e permanente, não se restringindo a alturas de guerra ou conflito. A estratégia integrada deve contemplar um conjunto de outras estratégias, segundo o General José Lopes Alves, denominadas estratégias gerais, que por sua vez, ainda se podem dividir em estratégias particulares relativas a cada sector. [7] Dentro das estratégias gerais podemos incluir a estratégia económica, diplomática, militar e outras, onde poderemos acrescentar a estratégia psicológica e mediática (projecção da imagem do País ). Dentro da estratégia económica inclui-se a Estratégia de produção, financeira de comércio externo. No âmbito da estratégia diplomática, incluem-se as relações internacionais, alianças e outras. Na militar, a terrestre, naval e aeroespacial. A psicológica e mediática, pode englobar acções de propaganda, contra-propaganda, assim como tudo aquilo que possa veicular uma imagem positiva do País, e eventualmente denegrir a imagem de um Estado adversário. Estas acções podem passar por iniciativas diplomáticas até à exportação de filmes, revistas, e outras obras artísticas. A estratégia política será aquela que subjaz às restantes num processo decisório, enunciando quais as estratégias mais adequadas para cada momento.


P.A.



[1] Leandro, José Eduardo Garcia, “ O Estado, o cidadão e a segurança. Novas soluções para um novo paradigma”, Ver. Segurança e Defesa, Fev 2007, Pág 12
[2] Santos, Loureiro dos, “Segurança e Defesa na Viragem do Milénio” – Publicações Europa América, Set.2001, pág. 112
[3] Id. Pág. 113
[4] Moreira, Adriano, “Teoria das Relações Internacionais” – 5ª Edição, Amedina, Pág. 444
[5] Leandro, Garcia, “ O Estado, o cidadão e a segurança. Novas soluções para um novo paradigma” – revista Segurança e Defesa, Fev. 2007.
[6] Alves, José Lopes, “Estratégia – Panorama Geral da sua Teoria”, Dom Quixote, 1999, pág. 131.
[7] Ibid, pág. 118-119

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

31 de DEZEMBRO


Pretende, o processo iniciático, inverter o processo natural que vai da vida para a morte, estabelecendo um processo cultural que vai da morte para a vida” Anes, José Manuel – “Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira” Ésquilo, 2ª Edição, Maio de 2007

No final de cada ano guardo, invariavelmente, imagens desgarradas de um tempo incompleto, caótico, sem ocupação útil, distraído a recolher do chão pedaços de vivências, alguns quase intactos, outros meio rombos, outros ainda que não valem o esforço, sendo melhor esquece-los a um canto da memória como uma pedra vã. Suspendo, infantilmente, o curso real dos acontecimentos e resguardo-me em brincadeiras como no começo do mundo. Afasto-me do grande pensamento mitigado no tempo fecundo, e esgueiro-me pelas entranhas audaciosas fora de horas, onde se reaprende o sabor da fuga e a curiosidade da vida. Destruo dogmas, convenções e outros manequins intelectuais e, vendado, embarco na festa dos enjeitados rumo ao turbilhão dos infernos. Desço ao centro da terra, isto é, ao âmago do ser, num ritual iniciático, obrigatório, mordaz, imprescindível ao crescimento e maturação do conhecimento. Aí, contido, aprofundo-me em figuras opacas e disformes, no magma visceral e imprudente, a rodear-me de uma predestinação abrasadora. Fixo-me na escuridão do abismo solene, cravado no assombro original das coisas, insistente, perseguido sem nexo pela espessa amálgama confidente do real oculto. Aí percebo a distância que separa o segredo dissecado sobre a causa das coisas e a ilusão de uma realidade simulada, aquela que se passeia vulgarmente à superfície, que são marcos fugazes da grande agitação subterrânea. No final de cada ano temos que fazer uma viagem ao centro da terra, descer às profundezas escuras dos elementos primordiais, patinhar nos escombros da memória, remexer a lama do tempo, arrastar o corpo pelas margens recolhidas da enchente, vociferar murmúrios intersticiais, arrancados do interior das células, casar com as bruxas frias e perdidas. Depois poderemos enfrentar com amor e emoção a luz do dia no conhecimento prévio das trevas, interpretá-la sem pudor ou receios, agudizá-la à medida exacta da sua dimensão, vive-la na lucidez perene dos contrastes naturais. Bom ano.



P.A.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Infância sem nome


A infância desfez-se aos três anos com a separação dos pais. Para um lado ficou o álcool atrofiado numa razão de ser, entre murmúrios, raivas e desconfianças, que vinham já de outras gerações perseguidas por enclaves de miséria, aborrecida entre tapumes e ralos fétidos. Para outro lado, um rosto mórbido de mulher maltratada, agitada pelos filhos pequenos que em redor seduzem os outros a partilhar uma grande incompreensão. Não deveria ter sido assim em comparação com os nossos, aqueles que vemos crescer de perto, ou mesmo de longe parecendo perto, por etapas assimiladas aos solavancos, entre o segredo do quarto e gestos efusivos de mal-estar, mas sempre com a noção de que um ser também se vai construindo com referência ao outro, em lugares e tempos precisos, por meio de interacções materializadas num corpo consciente. A infância desfez-se aos três anos com separação dos pais. Deveria ter sido o desinteresse feliz dos afectos, uma vinculação segura e disponível, capaz de compreender e responder ao crescimento e suas transformações. Os indivíduos da espécie humana não nascem com a capacidade de regular as suas próprias reacções emocionais, está nos livros. Precisamos de uma presença diferenciada e assídua que nos ensine a organizar os mais elementares mecanismos de resposta ao mundo, com o risco de nos remetermos a uma amálgama contida de razões sem objecto emocional, como cães abandonados à procura de quem lhes dê comida. Deveria ter sido mas não foi, cresceu depressa demais, agarrou-se onde pôde perante a enxurrada de experiências sem nome. Deveria ter sido mas não foi, passou ao largo da costa dos afectos, a sorrir ao seu próprio medo, na certeza cega de que se está num caminho incerto.

Durante o meu contacto com o Ruben despertei para os seus olhos esgotados a sumirem-se a meio da conversa, olhos a descolarem-se deste mundo para se pegarem às margens como que a lembrar o que resta de uma vida presa por arames.
- Estávamos tipo a andar na rua depois vimos um carro que estava tipo estacionado, um CIVIC, daqueles redondos atrás sabe? Isso… Pegámos e fomos dar uma volta tipo só passear está a ver? Não estragámos nada. De madrugada éramos os únicos na rua, oh!, fomos apanhados.

A adolescência deveria ter sido clamorosa, a gravitar à volta das raparigas, gestos excessivos a irromper por entre roupas desmesuradas, como hastes recém plantadas a intentar contra todas as intempéries. A adolescência deveria ter sido tudo menos um corpo fechado de preocupações correntes, a sentir medo de casa, a espreitar o risco entre becos e esquinas, a provar que se é outro que não aquele que à partida foi rejeitado.
- Gosto de dar uma de playboy à porta da escola, agora só quero mulheres, tenho namorada mas só uma não está a dar. Os amigos! Os amigos! Um vive com a namorada que é menor de idade, o outro anda por aí todo burro, sempre de bike, às vezes arranja as dos outros e consegue um guito, há outro que está preso. Eu quando acabar a pena vou para Espanha, tenho lá um tio que é pescador e já me disse que o meu destino é o mar. O meu pai está em França à procura de trabalho, a minha mãe está nas limpezas, eu tenho que ficar em casa com os irmãos pequenos até ela chegar.

A adolescência deveria ter sido passada a crescer sem reservas ou, pelo menos, sem rupturas ou contradições que a atirassem para fora de casa, juntando-se a outras fugas esvaziadas de propósito, com o único impulso da mentira que na ocasião se arma de razões para encontrar alternativa. A adolescência deveria ter sido outra coisa que não dois olhos esgotados a sumirem-se a meio da conversa, como um animal a agonizar depois de cravado com vários tiros.


P.A.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Onde é que você vai?


Em cada visita que faço ao lar mais me convenço que a vida são restos. - Onde é que você vai? Venha cá menina, está na hora de irmos para cima. Para o quarto não para o céu, bem poderia sê-lo, como quem diz, em nome da terra que já cumpriu o que lhe era pedido. A cadeira do lado vazia, ainda a semana passada ocupada insistentemente por um corpo sedimentado entre braços, removido entretanto para outro mundo porque este deixou de o alimentar. Qual daqueles olhares perplexos será o próximo a sumir-se sem aviso, deixando mais uma cadeira vazia e uma memória colhida para a ocasião que nos confirma a ordem de chegada e de partida. O silêncio da sala convida-me a sentar por momentos, sei que não é um convite mas a razão a implorar-me para não passar ao lado, para não evitar a nossa causa final, não fugir infantilmente à pele negando o que me é próprio. Os velhos desligados, espalhados pela sala em estilhaços consumidos pelo tempo programado. Uma vida honesta, correcta, sem excessos, rectilínea, o fio esticado sem nós e agora, agora no fim tudo emaranhado dos pés à cabeça, aos tropeções, num corpo curvado em ponto de interrogação sobre o que ficou. Os velhos indiferentes a mim, com excepção de um que se agarrou à minha presença com olhar fixo e ligeiro sorriso. Olho-o sem olhar, isto é, olho-o para dentro, dele e de mim, as impressões exteriores já não interessam nesta fase do campeonato, são resíduos redundantes que deixaram de embaraçar. Ali permanecemos no conforto de duas imagens por decifrar. O seu interior como que para mim uma obra sapiente a acenar-me tranquilamente do outro lado da margem, a minha figura como que para ele uma pálida recordação por encaixar. Ali ficámos, cada um alheado no interior do outro. De um lado a máquina cansada que assiste à grande paciência do mundo, do outro, uma peça solta que por instantes caiu sem propósito. Um espelho quebrado pela voz da auxiliar - Meus queridos vamos para cima! Para onde?
P.A.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Terrorismo global, o vazio de coisa nenhuma


O terrorismo global protagonizado pela Al-Qaeda, sofreu e tem vindo a sofrer algumas derrotas significativas com o enfraquecimento de pontos nevrálgicos da sua rede, através da captura ou morte de alguns dos seus líderes. O seu modus operandi tende para uma formatação cada vez menos dependente de uma cadeia de comando hierárquica. Embora funcionando num sistema de células, estas adquirem um envolvimento de grande amplitude e dispersão. Como nos refere António de Sousa Lara[1] “O sistema actual configura um terrorismo de segunda geração, no qual dificilmente vislumbramos uma permanência da lógica hierárquica tradicional. Pelo contrário, as células terroristas são agora suficientemente autocéfalas, estão apenas unidas, numa primeira fase de formação doutrinária e táctica, para depois se isolarem no contexto de uma inserção social participante, dentro da vida habitual de uma determinada comunidade, devendo gerar a sua própria autonomia de complemento de formação táctica, logística e de desempenho geral, uma vez que a definição da sua estratégia é de tal maneira pública que está permanentemente disponível na Internet ou nos noticiários da própria televisão”. Neste sentido o autor acrescenta que muito mais dificilmente se identificará, por exemplo, uma estrutura global da Al-Qaeda, “pela simples razão de que não existe uma sociedade sistémica, administrativa, hierárquica, burocrática, logística, em tal organização terrorista, mas sobretudo, uma “estrutura” segmentada, um ambiente (como nos sistemas operativos dos computadores)…”Trata-se, por isso, em boa parte de uma nova formatação da actuação terrorista e se já era difícil, ao identificar uma célula, reconstituir a hierarquia clandestina tradicional, por maioria de razão, é hoje particularmente mais gravoso e difícil, a partir de um núcleo terrorista actuante, identificar as suas ligações e os seus apoios, uma vez que todo o processo evoluiu para um sistema de natureza dispersiva”[2]

Esta nova formatação remetem-nos para um conjunto de acções que se podem inserir num tipo de violência estrutural, ao contrário da violência directa[3]. Esta, segundo o modo como classicamente é entendida, é desencadeada por actores identificáveis que infligem directamente danos a outros, incluindo-se neste tipo a guerra, a tortura, o crime, ou as acções terroristas. A violência estrutural, decorre de causas inseridas na própria estrutura social, onde é muitas vezes difícil de identificar um autor ou mesmo o início do processo. Dentro deste tipo de violência podem apontar-se, como condições potenciais da sua concretização, a privação de bens elementares de sobrevivência, ou, em outra instância, por exemplo, a privação do direito à educação. A repressão, como perda de várias liberdades, em particular a liberdade de escolha, é também apontada como um subtipo de violência estrutural. A alienação é enumerada como a terceira categoria de violência estrutural, ou seja, a privação de necessidades não materiais que podem conduzir à perda de identidade, forma de violência que está a expandir-se nas sociedades contemporâneas, tanto nas ocidentais como em outras, embora por causas diferentes. “Enquanto forma de violência, a violência estrutural, nas suas diversas modalidades, nomeadamente na de alienação, explica, muitas vezes o surgimento da violência directa, mais especificamente de algumas formas de terrorismo”[4]

Trata-se assim de um campo fértil para a disseminação da propaganda que legitima alguns terrorismos e o recrutamento de apoiantes. As elites e os governos, em relação ao terrorismo, tendem a subestimar a violência estrutural e a centralizar a sua actuação numa resposta ao nível da violência directa. A tentativa sistemática de dar ao terrorismo, em algumas das sua vertentes, respostas exclusivamente militares, numa óptica de que a violência apenas se combate com a violência, já provou não ter resolvido o problema, embora o tenha atenuado em algumas das sua vertentes. Mais difícil, contudo, será atenua-lo actualmente por essa via quando o fenómeno do terrorismo tem um impacto à escala global, e cujas causas são multidimensionais.

A identidade deficitária desenvolve-se em diferentes planos, seja religioso, político, social, económico ou cultural. A ideologia ou crença religiosa como factor justificativo do terrorismo global não parece ser suficiente, sabendo para além disso, ou pelo menos intuindo, que o processo de socialização nas sociedades islâmicas é orientado pela moral da culpa e do castigo. Segundo os estádios de desenvolvimento moral mencionados por Kohlberg, as sociedades islâmicas poderão situar-se num estádio pré-convencional, em que as normas e valores permanecem como realidades exteriores aos próprios indivíduos, criando nos sujeitos como que uma espécie de efeito de automatismo e predestinação, pelo que, dificilmente são vividas e integradas em princípios éticos universais, tal como o direito à liberdade de expressão, direito à justiça proporcional ou, em último caso, direito à vida. Este modelo potencia posições radicais e fundamentalistas, que não obstante serem geralmente diluídas na convivência pacífica dos crentes, tornam-se uma ameaça latente.

Se é verdade que um terrorista não é vulgarmente considerado um psicopata, comporta-se como tal. A perigosidade do fundamentalismo religioso, em particular do terrorismo islâmico, remete-nos para causas criminógenas relacionadas com uma patologia anti-social de tipo psicopata, tipificadora da personalidade dos agentes. Miguel Sanches de Baêna, ao definir diferentes classes de terroristas, considerando a sua posição e influência no seio das organizações, dá particular destaque à classe V, constituída por amadores, civis e sem experiência, como uma das classes mais perigosas e de difícil detecção. A sua faixa etária é abrangente, de ambos os sexos, de nível educacional baixo, estrato social correspondente a uma população urbana ou rural pobre, nascidos no meio do crime ou da cultura do combate
[5]. Isto remete-nos para populações, que dado as infra-estruturas sociais e económicas em que vivem, aliadas a um referencial moral, educativo e afectivo pobres, tornam-se permeáveis à influência e aliciamento de grupos terroristas, traduzindo o seu fácil recrutamento, um meio alternativo de vida para indivíduos que procuram um sentido de pertença não conseguido em estruturas convencionais. Os acontecimentos nos arredores de Paris, em 2006, reflectem um modelo de violência gratuita sem causas aparentemente determinadas, senão a procura e apropriação do mundo pela destruição. O atentado de 11 de Março em Madrid, embora tipificando um acto terrorista indiscriminado, apresenta contornos que o ligam a agentes anteriormente relacionados com o delito comum.

O terrorismo Global, para além do absolutismo divino, visão maniqueísta, expansão pela jihâd ou fé actuante, crise identificativa de um modelo fechado que se forma contra os outros, interage com uma patologia anti-social ou psicopática, que pode reunir energias nas populações desenraizadas dos aglomerados urbanos e desnutridos de quase tudo, ligadas a meios marginais e delinquentes como consequência lógica, cuja violência surge como um modo de apropriação do mundo que de outra maneira não é conseguido. Na personalidade anti-social, a passagem ao acto é um hábito que toma o lugar da reflexão, da emoção e dos projectos. Forma-se numa moralidade simplista destituída de emoções ou sentimentos, é uma ética solitária, que não pede nem dá, é pragmática e encurtada pela impulsividade do acto. O mundo é entendido como uma resistência permanente, o qual, numa relação meramente instrumental, pode ser violentamente fundado no seu nada. Parece ser neste espírito de missão, sem comando, de ímpeto espontâneo e voluntarista, que se configura a ameaça do terrorismo global. A jihâd, como esforço ou luta no caminho de Deus, pode identificar-se como um movimento permanente contra o sistema global estabelecido, persistente nas suas acções, anárquico nos meios, incapazes nos seus objectivos últimos, fundados num idealismo inacessível e utópico.

P.A.



[1] Lara, António de Sousa, “O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente”, Almedina, Fev.2007, pág. 44-45
[2] Ibid. Pág. 45
[3] Simões, Maria João, citando Cassese e Galtung in “Terrorismo(s) e usos das tecnologias da informação e da Comunicação” Cap. XI da obra “Terrorismo”, Coord Adriano Moreira, pág. 509
[4] Ibid pág. 510
[5] Baêna, Miguel Sanches, “Nos Bastidores do Terrorismo”, “As Teias do Terror” “Novas ameaças globais”, 2006 pág. 131-132

sábado, 23 de maio de 2009

Presença (parte III)


Disse que a presença é o concreto da existência. Não um pensamento mas uma noção que se deduz do universal ao facto de se estar a ser, um instante que se retém e se configura num ponto do mapa geral da mente. Não um pensamento mas um sentimento que se percorre num só tiro, num só gesto, num só suspiro. Não um pensamento mas uma evidência que se assola na consciência e suspende o fluxo regular das coisas. Não um pensamento mas uma certeza que aparece a fitar interiormente os despojos de um corpo relembrado. O espanto de sentir o eu perante a carga de todas as possibilidades, plantado na exactidão de um corpo gratuito que vibra na diferença das formas como a árvore que carrega a existência em síncopes tensas e mudas. Presença, estar a ser, quando brindamos na única via ladeada de pequenos marcos, pequenas consolações de vinho derramado, impressões maciças do bem e do mal confundidas num rosto vidrado. Uma só via um só viver, é esta a verdade, efémera e arrepiante no olhar fixo, estranha certeza ser-se visto, ser eu e os outros que sempre somos nós nos passos que damos enquanto sós. É a via da presença que nos resta, pálida ou eloquente, como o vinho trespassado de sentimento onde existir é estar embriagado e os turvos enganos esquecimento. A verdade que não se pensa, existe sem poder desdizer um caminho por acontecer e o erro dispensa. Estar presente e reconhecido no silêncio da estrada que se agudiza no horizonte por fazer, não há vida desencontrada nem caminhos perdidos, é tudo o que vai sendo e engrandece o sabor do espírito em gume, sob a luz diurna do costume ou no negativo que construímos sobre uma causa nocturna. O corpo pendular que marca os medos em suspenso pelo eu que sempre mente ao medo evidente de estar, ao medo das coisas vidente.

P.A.