domingo, 28 de novembro de 2010

Não esperes




Não esperes encontrar
Magras ilusões de cão
Quantas penas de falcão
Te hão-de sempre abalar

Não esperes que se rendam
sublimes manchas de infância
Correrás para que te prendam
Tais manchas de inconstância

Se por fim esperas perfilar
aspirações que há no ser
Procuras então reacender
O que não vais encontrar.

P.A.

sábado, 27 de novembro de 2010

A chuva a quem pertençe?




A chuva a quem pertençe?
No lugar da chuva ausente
Outra coisa há que vence
pela janela de quem sente

Não há árvores nem sombras
mas nada não pode haver
Mesmo espectros de ondas
ardem nos olhos de ser

O vento mais estranho
parece resumir a vida
Na origem e tamanho
Como a criança intuida

E se a vida é um estado precário
que insiste numa grande trama
esqueçamos esse preçário
E brindemos a quem nos chama

Tudo pertença a ninguém
Na consumação ancestral
E arrefecida que retém
Um espanto de cristal.


P.A.
 

sábado, 6 de novembro de 2010

Tudo em nós começa



Tudo em nós começa
momentos por descrever
que o espírito atravessa
para depois reter

Começo não revelado
motivo apreendido
pela lente captado
no momento renascido

lembrança dos dias vividos
a única que nos confessa
reflexos desconhecidos
tudo em nós começa


P.A.

sábado, 9 de outubro de 2010

Origem





Que espécie de pessoas procuram este mundo silencioso, belo, desconhecido, por vezes nefasto? Que motivações levam alguns a equiparem-se escrupulosamente, como se de um fato de gala se tratasse, a fim de mergulharem numa espécie de líquido amniótico que se adensa no corpo impávido e flutuante? Será isso mesmo? O encontro com a nossa origem profunda, a vida disposta num aquário gigante, pelo acaso disperso e a necessidade organizada? Não sei. Sei que se fica longe mas reconhecido por aquele silêncio onde não há vidas desencontradas nem caminhos perdidos. Penso que, no fundo, o verdadeiro encanto de mergulhar está no prazer desinteressado de não se cobrar nada a ninguém, a vida observa-se no seu encanto reservado, sóbrio, atento, como um berço materno cheio de sonhos que à superfície se confundem. Ainda haverá tesouros no fundo das águas mais profundas? Tinha um sonho de infância em que subia incansavelmente por uma grande colina atrás de alguém que me era próximo e fugia de mim sem explicação. Quando estava prestes a alcançar esse vulto a cena parava naquele momento e, colado ao chão, desfeito de ansiedade, eu assistia àquele alguém que me chamava sem nada dizer, a virar-se lentamente para mim e revelar-me o rosto do meu pai. Angústia, medo, sentimento de perda? Não sei, ficará para outra ocasião. O outro sonho de que falo não se sobe, desce-se. Descem-se degraus ondulantes que se estendem no nosso pensamento, lentos, pensados, movem-se sinuosamente sob o corpo de borracha que insiste em afundar-se. A cada degrau corresponde uma visão nova e mágica, um mundo que não é, mas também é o nosso, e que nos olha com serenidade e estranheza, a cada degrau corresponde uma cena suspensa, uma infância expectante e, já agora, quem em criança nunca teve curiosidade em espreitar?


P.A.

sábado, 18 de setembro de 2010

Fim de Férias


Acabaram as férias, espaço e tempo edílicos, produzidos artificialmente nas mentes em oposição à organização exaustiva do trabalho compulsivo. Todos já percebemos que as férias podem tornar-se uma dor de cabeça e uma fonte de stress, com repercussões no bem-estar das famílias, e porquê? Porque não há organização do tempo, porque se juntam todos os desocupados em torno do desejo de fuga. E todos querem fugir ao mesmo tempo, largar as amarras do tempo obrigatório e correr em todos os caminhos, estar em todos os lugares à mesma hora (por volta das sete da manhã), cansar-se como animais na livre arena dos dias pendentes. É difícil hoje escapar à tendência de aceleração do ritmo de retenção dos prazeres, da reorganização do tempo alternativo e programado segundo uma avidez atafulhada de encontros desencontrados com a rotina. Também me incluo no grupo daqueles que procuram programas, mais ou menos organizados, para estar em todos os lugares à mesma hora, sorver-lhes o âmago temporário e voltar confortado com restos colados à pele. Mas confesso, que também me incluo no grupo daqueles que encontram o máximo de prazer na leitura do jornal numa mesa de café, por tempo indeterminado, até que este pasme sobre a certeza das coisas. É quase sempre assim, conciliar estes dois mundos, sem uma acesa discussão familiar, é uma virtude respeitável em tempo de férias. Tudo desemboca na justificação comum de que são os efeitos da globalização, os quais, mesmo em tempo de férias, não deixam de promover a aceleração do ritmo vital, como um produto em movimento acabado para não deixar as mentes adormecerem na fixação de uma realidade adquirida. O processo de globalização significa uma mudança, como afirma Manuel Castells, "de um mundo de lugares para um mundo de fluxos". Face a esta nova reorganização do espaço e do tempo, os moldes de integração em tempo de férias, dantes idealizados, podem já não funcionar para grandes grupos. É preciso circular em grande velocidade, em todas as direcções, mesmo que virtualmente, sempre pela necessidade de que os diversos fluxos alimentarão novas necessidades, umas que se materializarão em prazeres concretos, outras que se assumirão, elas próprias, como uma realidade volátil, desmaterializada por feixes contínuos entre extremidades longínquas. Por agora, de regresso ao trabalho, quero apenas fixar-me numa paisagem concreta e palpável, que me assegura a existência e o prazer de estar a participar numa presença material, e não no vazio organizado virtualmente, aquele que percorre sem parar todos os lugares ao mesmo tempo.


P.A.




domingo, 13 de junho de 2010

Marcas revistas


Fui almoçar a casa dos meus pais, agora espaço fugidio de brves considerações e despedidas sobre a guerra dos dias, porque tudo se criou e encaixou pela medida aproximada do desejo. Houve tempo, contudo, para ver a varanda das traseiras ainda grande, virada para quintais esquadrinhados por muros e telhados de zinco. Sempre acreditei que o gato tinha fugido por aquele cenário triste, interrompendo de repente uma felicidade inesquecível, num acto de épica traição. Muito mais tarde, já sem surpresa ou desilusão que me consternassem, soube que o bicho tinha sido despachado sem dó, consta que não havia sofás ou cortinados que não tivessem as marcas do sacana do gato. Não comprendi, tratava-o bem, desde o dia em que o meu pai entrou em casa depois de mais um dia de escritório e largou na carpete aquele elemento familiar, assustado para nós, que depressa viria a estender a sua vitalidade pela relação bicho pessoa, pessoa bicho. Não compreendi, o animal era puro, a bola levava-o a saltar e a escorregar pelos mosaicos da cozinha, tomando poses que eu descobria como forças da natureza.

Depois veio o Liceu, a inconstância, o disparate, senhores do mundo, tempo criativo e disforme a arregaçar-se por um corpo empoleirado. Hoje achei-te desmedidamente bela...tão bela como um tesouro nas águas mais profundas, onde descemos por degraus cintilantes que se estendem no espírito. Alguem disse que não há homem sem passado. Mas alguém acrescentou que também não há homem preso ao passado. Assim seja, o que é certo é que a tua presença revitalizou-me a imagem de uma adolescente de beleza imparável. Aquela que vem do Liceu, lembras-te?, pelo caminho das arcadas, no eco das graçolas cuspidas por uma adolescência desmultiplicada em controversas questões, envoltas por reflexões imprudentes e imaturidades desesperantes, tão importantes para a causa comum, na razão única e justa capaz de mudar o mundo. Na janela a seguir lembro-me de uma velha atrás das cortinas, sobrevivente do sol, da chuva, de gerações. Lembro-me do seu rosto quieto atrasando os acontecimentos no limiar da discórdia. Tu já lá estavas, eu ia estando, os dois cheios de inocência e de sangue perpétuo a navegarmos pelo frenesim das coisas. Já lá estavamos numa vontade natural de amar, na espontaneidade de sermos a derradeira respiração atrás dos olhos risonhos sem paradeiro.

Agora não estás só. Também me sinto só mesmo quando não estou só. A realidade é o que nós fazemos dela. É uma construção interior, por vezes mal amanhada, interposta entre fluxos evolutivos, a essência pessoal e aquilo que nos é dado. É uma construção feita à nossa medida e conveniência, mas sempre adaptada a princípios universais que não escolhemos, inscritos na mais profunda consciência como instintos de sobrevivência e continuidade. Esses princípios podem ser a felicidade, o amor, a vida, a vontade ou o desejo, tão reais quanto inexplicáveis. São, por isso, inscrições da alma que aprofundamos com referência ao que nos é dado pelo mundo exterior. Não te sintas só, mesmo que te sintas só quero que saibas que a solidão é um sentimento provisório de auto-conhecimento que, como muitos outros sentimentos, ajuda-nos a conhecer a nossa essência por contraste com o seu oposto.

P.A.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Não sabia que eras tu, amor...


Hoje escrevo sobre ti, para ti, de ti, sobre a mulher como elemento natural e fonte de todos os prazeres, mas também de algumas desilusões, sejamos realistas, que pela necessidade de justificar todas as insuficiências do homem, por ele esperou decidida a faze-lo pensar na importância da mulher, o único elemento capaz de o fazer embarcar na mais profunda aventura da alma. O único elemento capaz de ser e não ser em simultâneo, não sendo defeito, mas riqueza. O único elemento capaz de felicidade extrema mas também de angustias desmedidas. O único elemento capaz de dar sentido ou de o tirar a tudo num ápice. Na verdade tenho-me sentido só, só mas acompanhado pelas insuficiências de um homem perante o majestoso palácio feminino, sempre desconhecido, sempre fantástico. Pergunto-te qual o sentido da cidade? Quando esmoreces na terra de ninguém. Qual o prazer da refeição? Quando no silêncio mecânico dos gestos te absorves de interrogações. Qual a novidade da viagem? Quando a incerteza te contamina o sonho de prudências retardadas. Qual a necessidade de cumprir deveres? Quando a razão não te reconhece nesta lógica de responsabilidade. Qual a força do amor? Quando por fim te afastas pela luz baça da manhã. Qual a importância da casa? Quando moramos separados por uma porta intrusa. Qual a razão das palavras? Quando o seu significado gasto e redundante te emudece a esperança. Qual a felicidade do encontro? Quando tão próximo te perdes sem explicações ou intimidades. Qual o sentido de tudo isto? Quando por fim, talvez nunca te tenha reconhecido em mim, nunca te tenha descoberto enquanto calma passeavas segura até ao fim do pontão. Amor, não sabia que merecias o mar como a certeza das formas mais puras encarnadas na beleza abandonada dos teus seios. Que merecias o ar como a explanação da corporeidade delirante e o sopro da alma reservada. Que merecias dádivas sucessivas de generosidade na ânsia de existires. Amor não sabia que eras tu…

Nunca percebi que crescíamos juntos e incompletos para no fim esperarmos alguns frutos, breves que fossem, mas que dariam para justificar esta empreitada desmedida e imprevisível. Nunca levei a sério a relação com os outros, descurei responsabilidades, afectos, sentimentos, tudo nunca passou de um acto informal, fora de horas, meio renitente por trás de um olhar distante e um corpo inquieto. Tudo nunca passou de uma fantasia, por vezes cruel e gratuita, a cobrar-me restos de felicidade enquanto desprovido me segurava a outro mundo, idealmente impossível. Tudo nunca passou de uma grande encenação a resistir-me à compreensão, a acenar-me da outra margem num sorriso por decifrar e uma quietude expectante. Não entendi as motivações que te acalentavam os dias repetidos, onde estavam? Escondeste-as? Eram só tuas, talvez, segredos não partilháveis à luz do dia, reservas de infância tão delicadas como o primeiro amor, expectativas e outros tantos ideias que tentavas encaixar a propósito de nós, no silêncio paciente e mordaz de quem prepara uma revolução. Não detectei qualquer movimentação suspeita, nem sequer imaginei que pudesse haver objectivo para tal. Não sabia que eras tu, amor. Terei sido eu a esconder-me? Por vezes a espreitar-te para observar os teus passos finitos, e aparecer depois no teu caminho já sem sentido de nos vermos no mesmo jogo que só agora entendi as regras. Não sei. És uma dádiva intemporal como a nossa lembrança risonha. Uma presença única, sedimentada numa grande causa oculta, real e intransmissível, que percorre uma essência de todo desconhecida, de que vamos dando conta pela intencionalidade dos gestos. Agora já não sei. És um pálido desejo, amorfo, desgraçado, uma natureza que subsiste no clamor dos espaços infinitos como um papel amarfanhado, um invólucro que se perde no vento sem tino ou emoção.

Na verdade nunca tenho muito tempo disponível e o que sobra deixa sempre a sensação que não consigo geri-lo da melhor maneira. Existe sempre tempo para ti, mesmo que não estejas presente, preenches-me toda a minha ausência, a minha angústia, o vazio do olhar que não acompanha o ritmo alucinante de outro tempo que escapa por entre a imposição estúpida dos deveres e as desatenções mergulhadas em caprichos pessoais. É o tempo dos que ficam, dos que partem, dos que adoecem, dos que morrem, tudo num só tempo que se apaga do quadro sem aviso prévio. Desculpa, hoje estou demasiadamente sensível, chego a pensar que a morte pode ser um facto tranquilo, consolador, uma fuga eterna para lá deste percurso penoso que não garante senão o avolumar lento de outro fim. Sabes que uma das razões porque gosto muito de ti é a lucidez e a profundidade com que sentes aquilo que digo. Chego a pensar que o tempo que me resta será dispendido a escrever para ti, é tudo que te posso dar, palavras filtradas do sangue por sentimentos infindáveis, frases interpostas em dois rostos que partilham a certeza de se entenderem no silêncio. Hoje sinto-me assim, um cão abandonado que estanca o focinho a cada passo para procurar algo que o conforte. Para mim os animais são todos cães, penso sempre em cães para me ajudar a compreender o que se passa no fundo de nós. “Cão como nós”, um livro muito giro de Manuel Alegre. “Amor cão”, belo filme. A balada da praia dos cães, não li, é pena, ou seja, é osso. Até me apetece chorar, será esta, porventura, a única vantagem que temos sobre os cães, verter lágrimas que desmascaram o nosso vazio. Não sabia que eras tu amor…


P.A.