segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Natal está a chegar




Este Natal eu vou pedir
Algo muito diferente
Uma prenda p'ra sentir
Para dar a toda a gente

Não quero consolas
Nem meias nem pijamas
Também não quero bolas
Nem jogos de damas

Natal é alegria
Amizade e calor
Natal é família
Paz e amor

Não quero bonecas
Nem legos nem bicicletas
Tudo menos cuecas
Nem mesmo trotinetas

Dinheiro não quero
Nem vales de desconto
Este natal eu quero
É ser feliz e pronto!


Rodrigo e turma

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

De feição lunar



De feição estranha e lunar
É o rosto ao adejar da luz
Um sonho claro a declinar
Que outra realidade produz

Uma coisa que se sente
No intervalo de crenças
De face lunar pendente
Iluminada de parecenças

O rosto traz parecenças
Vazias e traços inefáveis
E outras razões extensas
Em intervalos admiráveis

A lua de feição estranha
Que olha pelos versos
Na luz de uma entranha
Em fios dispersos

Grande face iluminada
No nulo da janela lunar
Recriar a grande morada
Antes do acto de pensar

Pensar tão só de nostalgia
Que tudo chega a ser nada
Por uma luz que se antevia
Na perdição desta morada

 P.A.

domingo, 28 de novembro de 2010

Não esperes




Não esperes encontrar
Magras ilusões de cão
Quantas penas de falcão
Te hão-de sempre abalar

Não esperes que se rendam
sublimes manchas de infância
Correrás para que te prendam
Tais manchas de inconstância

Se por fim esperas perfilar
aspirações que há no ser
Procuras então reacender
O que não vais encontrar.

P.A.

sábado, 27 de novembro de 2010

A chuva a quem pertençe?




A chuva a quem pertençe?
No lugar da chuva ausente
Outra coisa há que vence
pela janela de quem sente

Não há árvores nem sombras
mas nada não pode haver
Mesmo espectros de ondas
ardem nos olhos de ser

O vento mais estranho
parece resumir a vida
Na origem e tamanho
Como a criança intuida

E se a vida é um estado precário
que insiste numa grande trama
esqueçamos esse preçário
E brindemos a quem nos chama

Tudo pertença a ninguém
Na consumação ancestral
E arrefecida que retém
Um espanto de cristal.


P.A.
 

sábado, 6 de novembro de 2010

Tudo em nós começa



Tudo em nós começa
momentos por descrever
que o espírito atravessa
para depois reter

Começo não revelado
motivo apreendido
pela lente captado
no momento renascido

lembrança dos dias vividos
a única que nos confessa
reflexos desconhecidos
tudo em nós começa


P.A.

sábado, 9 de outubro de 2010

Origem





Que espécie de pessoas procuram este mundo silencioso, belo, desconhecido, por vezes nefasto? Que motivações levam alguns a equiparem-se escrupulosamente, como se de um fato de gala se tratasse, a fim de mergulharem numa espécie de líquido amniótico que se adensa no corpo impávido e flutuante? Será isso mesmo? O encontro com a nossa origem profunda, a vida disposta num aquário gigante, pelo acaso disperso e a necessidade organizada? Não sei. Sei que se fica longe mas reconhecido por aquele silêncio onde não há vidas desencontradas nem caminhos perdidos. Penso que, no fundo, o verdadeiro encanto de mergulhar está no prazer desinteressado de não se cobrar nada a ninguém, a vida observa-se no seu encanto reservado, sóbrio, atento, como um berço materno cheio de sonhos que à superfície se confundem. Ainda haverá tesouros no fundo das águas mais profundas? Tinha um sonho de infância em que subia incansavelmente por uma grande colina atrás de alguém que me era próximo e fugia de mim sem explicação. Quando estava prestes a alcançar esse vulto a cena parava naquele momento e, colado ao chão, desfeito de ansiedade, eu assistia àquele alguém que me chamava sem nada dizer, a virar-se lentamente para mim e revelar-me o rosto do meu pai. Angústia, medo, sentimento de perda? Não sei, ficará para outra ocasião. O outro sonho de que falo não se sobe, desce-se. Descem-se degraus ondulantes que se estendem no nosso pensamento, lentos, pensados, movem-se sinuosamente sob o corpo de borracha que insiste em afundar-se. A cada degrau corresponde uma visão nova e mágica, um mundo que não é, mas também é o nosso, e que nos olha com serenidade e estranheza, a cada degrau corresponde uma cena suspensa, uma infância expectante e, já agora, quem em criança nunca teve curiosidade em espreitar?


P.A.

sábado, 18 de setembro de 2010

Fim de Férias


Acabaram as férias, espaço e tempo edílicos, produzidos artificialmente nas mentes em oposição à organização exaustiva do trabalho compulsivo. Todos já percebemos que as férias podem tornar-se uma dor de cabeça e uma fonte de stress, com repercussões no bem-estar das famílias, e porquê? Porque não há organização do tempo, porque se juntam todos os desocupados em torno do desejo de fuga. E todos querem fugir ao mesmo tempo, largar as amarras do tempo obrigatório e correr em todos os caminhos, estar em todos os lugares à mesma hora (por volta das sete da manhã), cansar-se como animais na livre arena dos dias pendentes. É difícil hoje escapar à tendência de aceleração do ritmo de retenção dos prazeres, da reorganização do tempo alternativo e programado segundo uma avidez atafulhada de encontros desencontrados com a rotina. Também me incluo no grupo daqueles que procuram programas, mais ou menos organizados, para estar em todos os lugares à mesma hora, sorver-lhes o âmago temporário e voltar confortado com restos colados à pele. Mas confesso, que também me incluo no grupo daqueles que encontram o máximo de prazer na leitura do jornal numa mesa de café, por tempo indeterminado, até que este pasme sobre a certeza das coisas. É quase sempre assim, conciliar estes dois mundos, sem uma acesa discussão familiar, é uma virtude respeitável em tempo de férias. Tudo desemboca na justificação comum de que são os efeitos da globalização, os quais, mesmo em tempo de férias, não deixam de promover a aceleração do ritmo vital, como um produto em movimento acabado para não deixar as mentes adormecerem na fixação de uma realidade adquirida. O processo de globalização significa uma mudança, como afirma Manuel Castells, "de um mundo de lugares para um mundo de fluxos". Face a esta nova reorganização do espaço e do tempo, os moldes de integração em tempo de férias, dantes idealizados, podem já não funcionar para grandes grupos. É preciso circular em grande velocidade, em todas as direcções, mesmo que virtualmente, sempre pela necessidade de que os diversos fluxos alimentarão novas necessidades, umas que se materializarão em prazeres concretos, outras que se assumirão, elas próprias, como uma realidade volátil, desmaterializada por feixes contínuos entre extremidades longínquas. Por agora, de regresso ao trabalho, quero apenas fixar-me numa paisagem concreta e palpável, que me assegura a existência e o prazer de estar a participar numa presença material, e não no vazio organizado virtualmente, aquele que percorre sem parar todos os lugares ao mesmo tempo.


P.A.