quarta-feira, 23 de março de 2011

Sem começo nem fim


Há momentos em que tudo nos ocorre na mente, em simultâneo, numa espécie de catarse involuntária como uma manta de retalhos, tão pessoal quanto intransmissível, uma experiência de imagens configurada pelo sujeito que as vive sem limites. Eis o corpo numa singularidade absoluta e interna, apenas preso ao essencial por fora. Uma escada sem começo nem fim pelos arrumos da memória. É deste modo que o som do violoncelo emerge com gravidade, arrancado das entranhas adormecidas ao longo do tempo, disposto a recordar, sem pressas, entre a resignação e a esperança.

– Cuida de ti meu filho, olha que está hoje um na igreja com 47 anos, foi qualquer coisa de coração, conheço bem a mãe mas não tenho coragem de lá ir.
- Oh mãe, mas…o som do violoncelo, ao fim da tarde, a imiscuir-se por entre o voo rasante dos pombos e uma chávena de café quente.
- Os exames estão bem, contava-me a arguida. - Estão bem como? Se já não tenho um peito e tenho caroços no outro. Nem me tocou.
– Oh Doutora! Não tenho piolhos nem pulgas, pode tocar-me…bruxaria! Bruxa é ela, pensei eu sem lhe dizer. Na sala de espera mais um arguido, frio de sentimentos mas cordial. Até os criminosos mais criminosos têm uma certa ética, como o som do violoncelo a aprofundar o ser na fronteira entre a vida e a falta dela que é preciso respeitar no limite.
– Fui preso muito cedo, ainda não consigo enfrentar a sociedade. A prisão atrofiou-me, também me fiz um homem, senhor, sabe, um homem.
– Sim, disse eu, a pensar que talvez não soubesse coisa alguma. A pensar que aos quatro anos passava as tardes à janela na rua do Arco do Carvalhão, ao colo da minha avó, a ver os autocarros passarem. A felicidade contava-se lá em baixo à passagem dos verdes de dois andares, a uma distância da janela que me fazia sentir o rei da Avenida. Um dia, a meio da noite, os autocarros pararam para a minha bisavó ser arrastada para uma ambulância sem explicação. Não imaginava que os mais velhos pudessem cair sem forças numa encenação muda e sombria, para mais não voltarem, a meio da noite, de uma carrinha branca de sirene intermitente e silenciosa.

Onde me leva a escada? Ao Jorge, na altura do Liceu, conhecido pelo sapo. Quase não falava, esfregava as mãos e mostrava um leve sorriso sarcástico. Disse-lhe que não estava a perceber nada da aula de físico-química.
– Conheces Camel? Perguntou-me antes de tudo. Pensei que já conhecia o suficiente para me desembaraçar nestes primeiros encontros, mas, Camel?, tabaco?
– Conheces o álbum “Mirage” ?, perguntou-me enquanto enterrava a cabeça na camisola de lã vermelha imune a todas as ameaças, até às que se propagavam pela voz da professora ao final da tarde, já noite, alimentadas pelas lâmpadas florescentes de tom amarelado como o cansaço de Inverno. Abanei a cabeça na minha timidez ansiosa.
- Percebes isto? Insisti eu. Mas ele mais não disse. Ficou a olhar-me como um verdadeiro batráquio à espera de uma eventual presa, de sorriso sarcástico, cabeça enterrada nos ombros, agora a esfregar as mãos veementemente. Onde estás Jorge? Talvez escondido no mato dos anos 80, agora com as mãos atrás das costas a deixar escapar, de quando em vez, um leve sorriso sarcástico. Acabei de recordar uma vez mais Camel, o álbum “Mirage”, não me esqueci de ti, não precisavas de dizer mais nada, o álbum fala por si, o que é que interessava a matéria de físico-química? O importante era saber se eu, colega forçado de carteira, recém-chegado por motivos de transferência administrativa, conhecia Camel ou era como os outros camelos.

P.A.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

A Oriente nada de novo


A propósito da actual crise no Egipto impõe-se questionarmo-nos sobre que alicerces se edificará a nova ordem político-social. E porquê? Porque estamos perante uma sociedade que é também massivamente representadora de um vasto universo religioso. O precursor dos actuais movimentos islamistas (incluindo movimentos radicais e activistas) surgiu no Egipto, nos anos 30, por parte de um professor primário, Hassan al-Banna. Surgiu num contexto de crise nacional dado a subjugação da monarquia egípcia ao poder colonial Inglês. O movimento fundado por al-Banna, a “Irmandade Muçulmana” baseava-se num programa de reformas sociais, económicas e políticas. Os poderes coloniais eram acusados de serem os responsáveis pelo declínio do País. Nos anos 40, os elementos deste movimento já haviam criado células secretas e tinham infiltrado diversas instituições públicas (1)


Numa primeira abordagem aos conceitos de instabilidade versus estabilidade cultural e identificativa aplicados às sociedades ocidentais e Islamismo, poderíamos enquadrar o dinamismo e a crise de valores do ocidente no primeiro conceito, a hierarquia e o absolutismo político-religioso do Islamismo, no segundo conceito. Contudo, sabemos que a história do Islão mostra a irrupção periódica de manifestações de ressurgimento religioso como resposta a situações de crise interna. No decurso dos séculos XVIII e XIX, com particular realce para o reinado Persa de Nasir al-Din, o clero shiita era tido como protector do povo, sendo que os sucessivos governos eram vistos como corruptos e ímpios. A corrupção e a ineficácia de Nasir al-Din aliadas à sua política permissiva de abrir a Pérsia à exploração económica estrangeira, nomeadamente, o direito exclusivo atribuído à Companhia Inglesa de produzir, vender e exportar o tabaco, provocaram ondas de agitação social que se transformariam em revoltas abertas. Estas revoltas, organizadas e lideradas pelos ulama ( lideres religiosos ) incitaram a população a juntar-se-lhes com o propósito de verem preservada a dignidade do Islão face à crescente influência estrangeira.(2)

Igualmente, durante o século XIX, a sociedade perso-iraniana foi fortemente pressionada por duas potências europeias, a Russia e a Grã-Bretanha. A expansão económica e mercantil destas potências e a sua fácil penetração pelo domínio militar da região, geradora de apetências, como o petróleo, terá sido possível por: o enfraquecimento do poder central, através da perca de soberania na organização estratégica e militar na defesa do território, decomposição da sociedade Persa num mosaico de estados autónomos, com destaque para as minorias étnicas e religiosas, o crescente poder dos ulama, assente na teoria de que o governo deveria ser preconizado pelos lideres religiosos.(3)


As raízes da crise no mundo muçulmano, situam-se assim no século XIX, com a colonização dos Estados muçulmanos, e na penetração económica e política pelas potências coloniais ocidentais. A instabilidade cultural das sociedades muçulmanas poderá, para além disso, reflectir a crise existente entre um sistema não apenas espritual-religioso, mas também ideológico, que permitiu o deslocamento do campo teológico para o sócio-político. Este, contudo, não tem conseguido impor-se na coerência, consistência e dominância de actuação, tal como o código de crenças e leis de inspiração divina sharia, que serviu o mundo muçulmano desde o século VII. Essa tentativa de providenciar uma ideologia funcional que justifique o esforço de construção do Estado-nação, de desenvolvimento económico e participação social, tem falhado. Depois do domínio colonial às mãos dos Europeus, o mundo muçulmano assistiu à sucessão de uma panóplia de regimes e ideologias que se mostraram inaptos, corruptos e repressivos.

As sociedades islâmicas, quer por motivos externos, quer internos, têm sido afectadas por crises que reflectem, por um lado, a falta de soberania de estado, pela incapacidade de resistir ao longo do tempo ao domínio das potências coloniais. Por outro, a incapacidade desse mesmo Estado se assumir numa estrutura governativa coerente, capaz de integrar o poder religioso, na definição do seu papel conciliador da sociedade. Estes factores, fornecem assim, um campo favorável à emergências dos movimentos fundamentalistas religiosos, como alternativa de viabilidade unificadora da Umma ( comunidade dos crentes em Alá ), à incoerência e instabilidade política. O processo de separação versus conciliação das vertentes política e religiosa tem sido um factor de instabilidade que reflecte a possível transição das sociedades muçulmanas, face a um mundo ocidental que, desde o período colonial, representa para aquelas um mundo ameaçador, dominador e manipulador, nutrindo, em simultâneo, sentimentos de receio e subjugação, mas também de inveja e atracção.

“É igualmente verdade que as correntes reformistas tentaram adaptar os princípios islâmicos tradicionais ao mundo moderno, e neste esforço, enfatizaram os elementos participativos e potencialmente democráticos do Islão. Salientaram os conceitos de shura (consulta, o equivalente funcional da regra de debate parlamentar), ijma (consenso da comunidade) e ijtihad (reinterpretação de certas áreas das leis islâmicas de forma a apoiar noções de democracia parlamentar, eleições representativas e reforma religiosa). Contudo, sem conseguirem adoptar o liberalismo enquanto indiferença face à religião. A mudança é mais significativa no domínio da organização política do que no campo dos valores sociais e religiosos” (4)

Teremos assim uma verdadeira mudança politico-social ou, com o actual ressurgimento da “Irmandade Muçulmana”, e de acordo com o passado, uma tentativa de substituir uma autocracia por uma teocracia?
P.A.


(1) Pinto, Mª. Do Céu de Pinho Ferreira, “Infiéis na Terra do Islão”: Os Estados Unidos, o Médio Oriente e o Islão, Fundação Calouste Gulbenkian p. 30

(2) Costa, Hélder Santos "Da Pérsia Moderna ao Irão de Palhavi", ISCSP p. 71-73


(3) Pinto, Mª Do Céu Pinho Ferreira, "Infieis na Terra do Islão" : Os Estados Unidos, o Médio Oriente e o Islão, Fundação Calouste Gulbenkian p. 39-40


(4) Ibid p. 95-97

domingo, 16 de janeiro de 2011

Outra rotina



Uma atmosfera suburbana, um rosto resignado a contornar esquinas, ecos de tábuas contra o solo, o vento sem regras a remover desperdícios deixados nos passeios por incúria ditada desde o berço, gente pendente em portas e janelas sem assunto ou motivo porque a vida decide-se à tona dos deveres e compromissos, é feita de acidentes e azares do destino, ocorre sem paradeiro por entre intenções averbadas à força das circunstâncias. Estaciono o carro ao acaso junto do contentor do lixo grafitado, a ocupar parte da estrada, também ele desalinhado da vida com rodas a apontar para todas as direcções. Aí assaltam-me todas as ideias de um bairro social. Imagens e sons que se me vão mostrando numa película involuntária e sobreposta, desenrolada a partir do inconsciente, sem esforço, ao sabor do vento, do odor a cannabis e dejectos caninos, dos berros dos miúdos e batida do funaná. É dia de semana mas poderia ser fim-de-semana porque a ocupação útil do tempo decorre do desperdício das horas. A manhã começou irritada com o trânsito, a lentidão do miúdo, o corte nos salários, o novo acordo ortográfico, a rotina que me espera, paciente, a observar-me encostada ao muro da estrada a confirmar a fatalidade dos dias. A rotina não dá tréguas, discreta mas sempre a seguir-nos os passos à distância, umas vezes de aspecto carrancudo, outras vezes com um leve sorriso nos lábios como que a dizer-nos; aguenta-te que não há alternativa. Mas de repente a rotina minimiza-se na consciência, dentro do carro estacionado junto ao contentor do lixo no bairro social. Agora sou eu a observa-la, não a mesma que há poucas horas me tolhia o corpo. Esta rotina não quer saber da outra rotina, desconfia dela, segue pela margem enfiada num capuz, reconhece-a como se reconhece outra religião mas não a olha nos olhos, baixa a cabeça e recolhe-se em murmúrios de um vão de escada. Esta rotina adoece no bafio de uma cama num quarto escuro, resguarda-se do álcool e maus-tratos do marido de quem fugiu em desespero com dois filhos pequenos. E mais não diz para esconder segredos que não podem ser falados senão por código. Nunca se sabe e nunca se esquece. Esta rotina vive de papéis amarfanhados sobre o rendimento social de inserção e baixas médicas indeterminadas, exibidos aos técnicos sociais na mesa de cozinha, com a outra mão a afastar a peça de louça para o canto. Esta rotina deambula pelo bairro sem trabalho, os braços cruzam-se numa esquina à espera que alguém pergunte se queres ganhar dinheiro, como? pouco importa. Esta rotina de más companhias desdobra-se em visitas solidárias à prisão, à boleia de sacos de plástico e metade do dinheiro para a gasolina do carro do vizinho, de cujo filho nem se sabe porque lá está. Esta rotina tem um primo que é advogado e já safou algumas vezes, uma tia empregada num hipermercado que dá bons conselhos, uma mãe que tudo sofre e não desiste. Esta rotina por vezes assemelha-se à outra, aquela que mora ali mesmo ao lado, que há poucas horas me empurrava para fora de casa e me obrigava a enfrentar a vida disposta em peças de louça ao canto da mesa, enganadoras, descoloradas do seu sentido original, pirosas, desleixadas, desprezíveis. Esta rotina é mais livre e irresponsável, deita-se tarde e acorda atónita a fixar o vazio branco ao fundo da parede. Esta rotina conseguirá um pedaço de terra como as outras, uma campa ou uma lápide talvez, flores com certeza, não se podem negar a quem nunca falou e nunca esqueceu. Acho que agora estão a preferir ir para o forno, desembaraçam-se das cinzas e pronto, voltamos à rotina.

P.A.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Natal está a chegar




Este Natal eu vou pedir
Algo muito diferente
Uma prenda p'ra sentir
Para dar a toda a gente

Não quero consolas
Nem meias nem pijamas
Também não quero bolas
Nem jogos de damas

Natal é alegria
Amizade e calor
Natal é família
Paz e amor

Não quero bonecas
Nem legos nem bicicletas
Tudo menos cuecas
Nem mesmo trotinetas

Dinheiro não quero
Nem vales de desconto
Este natal eu quero
É ser feliz e pronto!


Rodrigo e turma

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

De feição lunar



De feição estranha e lunar
É o rosto ao adejar da luz
Um sonho claro a declinar
Que outra realidade produz

Uma coisa que se sente
No intervalo de crenças
De face lunar pendente
Iluminada de parecenças

O rosto traz parecenças
Vazias e traços inefáveis
E outras razões extensas
Em intervalos admiráveis

A lua de feição estranha
Que olha pelos versos
Na luz de uma entranha
Em fios dispersos

Grande face iluminada
No nulo da janela lunar
Recriar a grande morada
Antes do acto de pensar

Pensar tão só de nostalgia
Que tudo chega a ser nada
Por uma luz que se antevia
Na perdição desta morada

 P.A.

domingo, 28 de novembro de 2010

Não esperes




Não esperes encontrar
Magras ilusões de cão
Quantas penas de falcão
Te hão-de sempre abalar

Não esperes que se rendam
sublimes manchas de infância
Correrás para que te prendam
Tais manchas de inconstância

Se por fim esperas perfilar
aspirações que há no ser
Procuras então reacender
O que não vais encontrar.

P.A.

sábado, 27 de novembro de 2010

A chuva a quem pertençe?




A chuva a quem pertençe?
No lugar da chuva ausente
Outra coisa há que vence
pela janela de quem sente

Não há árvores nem sombras
mas nada não pode haver
Mesmo espectros de ondas
ardem nos olhos de ser

O vento mais estranho
parece resumir a vida
Na origem e tamanho
Como a criança intuida

E se a vida é um estado precário
que insiste numa grande trama
esqueçamos esse preçário
E brindemos a quem nos chama

Tudo pertença a ninguém
Na consumação ancestral
E arrefecida que retém
Um espanto de cristal.


P.A.