segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O imperfeito jihadista









Aquele que morre para matar
É contrário ao que vive para morrer,
Permanece em estado de raiva e
Ignorância sem compreender
O interior do mar de mudança
Que edifica a crença num Deus
Vivo e Pluralista.
Aquele que morre para matar
Estagna na moral da culpa
E do castigo, voz empedernida
Nas margens erróneas de lama
A gritar toda as proibições divinas,
Dever exterior ao centro, morto por dentro,
Atrás de cortinas envergonhadas
E cegas que combinam o fatalismo
E a obediência de um acto falhado.
Aquele que morre para matar
Luta pela verdade falível
Das palavras cravadas no muro
Intangível do medo e discórdia,
Entre fiel e infiel, mau e bom,
Luz e trevas, guerra e paz.
Aquele que morre para matar
Foi contaminado pelo maniqueísmo
Imperdoável de outro mundo,
De uma verdade absoluta inexistente,
Em oposição à vida sempre renovada.
Aquele que morre para matar
Poderá nem venerar qualquer Deus
Porque a sua anomia espiritual,
Paralisia intelectual e desespero
De intenções, não lhe permitem
Sequer viver essa experiência.



P.A.






sábado, 3 de janeiro de 2015

Prefiro o silêncio






Não digas nada, prefiro o silêncio
Que se constrói pelo inicio das ideias,
Que é um modo insuspeito de gostar.
Prefiro o grande vazio dos espaços,
O sangue que corre pelas veias,
As pedras soltas, os tons imponderáveis
Do mar e o espírito em estilhaços
Que são motivos para não falar.
Mantém-te quieta, prefiro o desejo
Adormecido do teu corpo indeciso,
Que é um modo preciso de escutar.
Prefiro a visão regrada das formas,
O prazer que escorre pelo sorriso,
As mãos leves, o cheiro da pele que
Fica no ar e o anjo em que te tornas,
Que são sinais para ficar.
Vê e abraça-me, prefiro o calor
Eficaz de um gesto profundo,
Que é o modo ínfimo de encontrar.
Prefiro a avidez perdida da respiração,
A fusão secreta do acto fecundo,
Os seios etéreos e a voracidade das coxas
Para apertarem este rio de paixão,
Que são a eterna ambição de amar.



P.A.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Morte matinal





Fui ao funeral e compreendi todos os desencontros,
O avesso das relações, a incoerência do raciocínio,
Das regras e convenções, vírgulas e pontos.
Os dias que passaram tão depressa como o transito,
À velocidade da loucura entre frases feitas que tardam
Em soltar-se do silêncio das paredes mundanas,
Vozes insanas que se propagam no tempo para unir
Extremos obtusos, como sons difusos no latir de cães
À procura de comida, que é esta a morte sentida
No fim do espectáculo, fechado num receptáculo
Onde se reúnem todas as provas de vida,
Numa presença fora de horas, em que o frio
Gelado foi a causa do coração parado.


P.A.

domingo, 30 de novembro de 2014

O que importa...





Importa respirar lenta e profundamente,
Observar da janela qualquer coisa vã
Ou reparar em pormenores simplesmente,
Sorrir e calçar os sapatos pela manhã.
Sentir a beleza distraída
Que se reparte pela paisagem,
Entre a luz solta e reflectida
Nos teus cabelos de passagem.
Importa falar com um amigo
Sobre qualquer assunto banal,
Depois partilhar contigo
Esta conversa sem manual.
Importa acariciar o cão malhado
Mesmo aqui sentado ao meu lado,
Passear, ler, escrever o que se gosta
Sobre esta pequena amostra.
Importa não esquecer o mar
Tantas vezes alterado e cinzento,
O começo onde temos que voltar
Sempre que surge este sentimento
De tudo estar quase a acabar.
Importa olhar o que me rodeia,
Comer algo que dê prazer e
Beber o vinho da última ceia,
Fechar os olhos e escolher
Um desejo que se perca no escuro,
Entregando a sorte ao futuro
Como tudo o que se leva para sempre
Ao bater a porta abaixo do chão,
Porque o que realmente importa
É amar a vida sem razão.


P.A.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Porque é Domingo





Lembro-me dos Domingos nas arribas,
Pescadores quietos contra a névoa de espuma,
Aves a penderem de muralhas antigas,
O mar de sabores, a serra e a bruma.
Os velhos a darem longos passeios sozinhos
Antes de desaparecerem pela boca dos vizinhos,
Que contam a morte à esquina em tom de sina.
Os pais ainda vivos a aconselharem prudência,
Aos Domingos, todos juntos, a lembrar defuntos
Da morada ao lado, que deixaram a vida na condição
Do bem e do mal, que é a nossa causa final.
Eu a lembrar-lhes que a guerra é eterna
E a morte injusta, que a casa é o nosso umbigo
E que tudo o que tenho trago comigo.
Eu a lembrar-lhes todos aqueles
A quem o ódio e as balas atiraram
Para valas comuns, sem idade e memória,
Que só o sangue dos Balcãs ficará na história,
Porque é Domingo e estamos na Praia das Maçãs.


P.A.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Em tom menor





Em tom menor subsiste a moléstia.
O sono ataca. A moleza instala-se.
A indolência eterniza-se.
O cansaço, o tédio, a preguiça,
O langor do mundo, já sem dor,
No canto da sala, sem fala, pálido,
Seminu, fastidioso, por vezes rancoroso.
O peso do corpo contra o chão, indefeso,
Reduzido à palma da mão,
Preso ao torpor da alma,
A abater-se para o interior,
Paciente obtuso, lugar confuso,
Voz infundada, obra inacabada,
Desgosto profundo, amor rotundo,
Paz obscura, tudo para o fundo.



P.A.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Outros lugares





Como tantas vezes acontece, por mais que a evolução se apodere dos espaços, transformando-os pelo tempo intruso e descaracterizado, estes resistem pela sua história e significado, porque a maioria de nós ainda vive em lugares, onde pertencemos pela interacção construtiva de afectos, sentimentos, valores, necessidades e sacrifícios. O mercado flutuante é um lugar singular que insiste em mostrar-se aos turistas na sua autenticidade ancestral, quase incólume e impávido face ao progresso massificado, eternamente presente para além de todas as outras lógicas espaciais. O comércio de frutas e vegetais é um modo de vida primordial que desliza pelo torpor caudaloso dos estreitos canais na periferia da cidade, sem pressas ou exaltações, em pequenos barcos repletos, quase todos silenciosos, dirigidos por mulheres concretas de olhar afável e introspectivo, pulverizando a atenção de quem visita o mercado, de uma sedução serena e fascinante, que aumenta o desejo de comprar e provar todos os sucos tropicais, ou mesmo um chapéu que seja, para proteger do sol e da chuva, ingredientes naturais que sempre se encontram para promover a vida.



P.A.

Mercado flutuante








Mercado flutuante II













Mercado flutuante III













terça-feira, 14 de outubro de 2014