terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"Teoria de tudo"






Tudo está em tudo, a matéria
Desmonta-se em fragmentos de luz
Infinitos, o espírito carrega-se de carne
E ossos e segue todos os caminhos.
Volta-se o vento, as árvores são musas
Em poses indiscretas plantadas no sentido
Inverso à tempestade cósmica.
Entre o céu e a terra há em cada
Coisa parte de outra coisa, o mínimo
De cada uma é o grau menor das outras,
É impossível que deixe de o ser porque
O máximo de tudo contém todos
Os mínimos em si mesmos, e cada coisa
É grande e pequena à medida dos mundos
Que partem dos sentidos, enfrentam
O caos e criam o sonho e a técnica.
Em cada coisa o tempo é pouco e bastante,
Não nasce nem morre, é um fogo contínuo
Pelos meandros dos homens, peões atirados
A um lugar de cinzas, utopia de vontades
Insurgidas em cifras de saber rotundo.
Em cada coisa há uma espiral
Progressiva e regressiva tomada
Por vulcões maiores que acabarão
Noutras causas sem nome, tempo
Que não nasce nem morre,
Onde se vive e não se foge…



P.A.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Incerteza da razão








A incerteza da razão
Sente-se por perto
Se guardas uma intenção
Sob o céu encoberto
E delicadeza dos ombros
Que se abate num suspiro
Entre mar de escombros
E olhar indeciso.
A lógica do amor
Perde-se no egoísmo
De um beijo incolor
E um simples silogismo
De braços caídos
A pouca distância
De sonhos vencidos
Sem grande importância.
Mas a clareza dos sentidos
Toca-se na luz ausente
Se soltas uma confissão
Como um astro transparente
E furor do teu rosto
Que se abre em sorrisos
Entre a brisa escalada de Agosto
E lábios de cobre concisos.
É assim que te sinto
Longe aqui ao meu lado
Neste estranho labirinto
De prazer desencontrado
Onde o amor é saudade
Quando foge e se admira,
Paixão da verdade
Razão da mentira.



P.A.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A cidade










Resguarda-te do instante num abraço,
A cidade cresce voraz sem princípio
Nem ermo, um amplo embaraço de tons
Que nos chegam sem prévio aviso,
Esgrimidos no vácuo súbito sem termo,
Impondo outro tempo entristecido.
Isola-te do contínuo temporal sem história
E significado, e olha a sequência das mãos
Sobre o cristal polido da pele, dividida em
Grãos que marcam o momento consumado.
Evade-te do arresto das horas engolidas
Sem sentimento, a cidade são avenidas
Frívolas, carros comprimidos, edifícios
Inconsoláveis, pessoas sós no grande
Pavimento abstracto de vidas esquecidas.
Sai da rede de fluxos infindáveis,
Espalhada passivamente no acervo de rostos
Programados, dormentes introspectivos,
Quase impiedosos, anjos inconsequentes
Que vagueiam por universos paralelos entre
A indiferença e outros ideais furtivos.
Regressa por momentos à fantasia
Dos espaços, à disposição dos afectos,
À timidez do encanto, a um tempo
Adquirido que se possa encontrar,
Porque este é o nosso lugar.




P.A.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Espero e sinto





Espero e sinto o desapego
Do tempo, tudo o que sobra
De valor sem lei ou segredo
Numa jornada que não se cobra.
Espero e sinto o latejar
Da luz no peito rechaçada
Como a liberdade que conduz
A existência despojada.
Espero e sinto uma viagem
Sem rasto, impressão latente
De que a vontade me prende
Como um lastro a esta terra
Evidente, última estada
Antes da partida desafortunada


P.A.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O imperfeito jihadista









Aquele que morre para matar
É contrário ao que vive para morrer,
Permanece em estado de raiva e
Ignorância sem compreender
O interior do mar de mudança
Que edifica a crença num Deus
Vivo e Pluralista.
Aquele que morre para matar
Estagna na moral da culpa
E do castigo, voz empedernida
Nas margens erróneas de lama
A gritar toda as proibições divinas,
Dever exterior ao centro, morto por dentro,
Atrás de cortinas envergonhadas
E cegas que combinam o fatalismo
E a obediência de um acto falhado.
Aquele que morre para matar
Luta pela verdade falível
Das palavras cravadas no muro
Intangível do medo e discórdia,
Entre fiel e infiel, mau e bom,
Luz e trevas, guerra e paz.
Aquele que morre para matar
Foi contaminado pelo maniqueísmo
Imperdoável de outro mundo,
De uma verdade absoluta inexistente,
Em oposição à vida sempre renovada.
Aquele que morre para matar
Poderá nem venerar qualquer Deus
Porque a sua anomia espiritual,
Paralisia intelectual e desespero
De intenções, não lhe permitem
Sequer viver essa experiência.



P.A.






sábado, 3 de janeiro de 2015

Prefiro o silêncio






Não digas nada, prefiro o silêncio
Que se constrói pelo inicio das ideias,
Que é um modo insuspeito de gostar.
Prefiro o grande vazio dos espaços,
O sangue que corre pelas veias,
As pedras soltas, os tons imponderáveis
Do mar e o espírito em estilhaços
Que são motivos para não falar.
Mantém-te quieta, prefiro o desejo
Adormecido do teu corpo indeciso,
Que é um modo preciso de escutar.
Prefiro a visão regrada das formas,
O prazer que escorre pelo sorriso,
As mãos leves, o cheiro da pele que
Fica no ar e o anjo em que te tornas,
Que são sinais para ficar.
Vê e abraça-me, prefiro o calor
Eficaz de um gesto profundo,
Que é o modo ínfimo de encontrar.
Prefiro a avidez perdida da respiração,
A fusão secreta do acto fecundo,
Os seios etéreos e a voracidade das coxas
Para apertarem este rio de paixão,
Que são a eterna ambição de amar.



P.A.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Morte matinal





Fui ao funeral e compreendi todos os desencontros,
O avesso das relações, a incoerência do raciocínio,
Das regras e convenções, vírgulas e pontos.
Os dias que passaram tão depressa como o transito,
À velocidade da loucura entre frases feitas que tardam
Em soltar-se do silêncio das paredes mundanas,
Vozes insanas que se propagam no tempo para unir
Extremos obtusos, como sons difusos no latir de cães
À procura de comida, que é esta a morte sentida
No fim do espectáculo, fechado num receptáculo
Onde se reúnem todas as provas de vida,
Numa presença fora de horas, em que o frio
Gelado foi a causa do coração parado.


P.A.