segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mar cinzento






A minha natureza é mar cinzento,
Utopia de sonhos e cor turquesa,
Estado enfermo, descontentamento,
Contradição, permanente incerteza.


É um pulsar de motivos sem fim,
Um lugar de ideias que não existe
E que se revolta contra mim
Numa longa angústia que resiste.


É uma inconstância que sempre anoitece
Enquanto acompanha os reflexos de luz,
Uma felicidade que nunca acontece
Como o amor que não se introduz.


É uma pancada mortal e ofuscante
Que se sofre sem querer
Na simples razão de viver
Esta banal condição errante.


É uma melancolia enternecedora
E própria do fim dos tempos,
A morte cega e esmagadora
Que expele todos os sentimentos.


A minha natureza é mar cinzento
Voo nocturno, mergulho solitário,
Não é uma arte nem um dom,
É um trilho contado em outro tom,
Que resume o poema necessário.


 
P.A.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Quanto tempo falta?






Tempo, tens tempo? Quantas horas
Te faltam para o ponteiro chegar ao zero
E estancar todas as memórias que choras
Dos dias que sobram e já não espero?


Quanto tempo resta para respirares o mundo?
A espiral dos ventos, o fumo irreflectido
Que se atravessa na estrada sem fundo,
Instante petrificado de sentido
Em tudo o que não serás, plantado
Longe do possível, na sala sem enredo,
Ânsia de uma morte em segredo.


Um dia poderá já ser tarde amigo,
Quando a vida se fechar numa recriação
Obscura e eterna, a sós contigo,
Num corpo imobilizado de solidão
À esquina de uma avenida,
Onde passam pequenos sedimentos
De outra morte repetida.


Um dia serás uma folha em branco
Sempre por preencher, o vazio dos tempos,
Uma lápide gravada no manto
Investido de todos os esquecimentos,
O campo que guarda os traços do rosto
Na lógica invertida de sentimentos,
No fim da tua existência eleita,
Na morte serene e refeita.


P.A.

terça-feira, 3 de março de 2015

Haste de terra






Já escrevi que a vida são restos que comigo
Se encontram entre caminhos escarpados,
Uma haste de terra que cumpre o que lhe é pedido,
Senda de alma vazia em corpo sedimentado,
Lampejo entre braços à espera de se entregar
A outro mundo porque este deixou de o alimentar.

Já escrevi sobre o grande silêncio do perdão
Que é o magma dos viventes resumido no tempo,
Uma pequena memória colhida para a ocasião,
Sombra que convida a escutar o momento
Sem evitar a pancada ofuscante no coração
E as aves trémulas que giram o atordoamento.

Velhos despidos no tempo programado,
Velhos cansados do empecilho do corpo,
Um gesto lacónico, uma ode desfigurada,
O meu espanto de me saber já morto
Entre vidas aligeiradas em tons de despedida,
Pontos de interrogação curvados no nada,
Almas sem ordem de chegada ou partida.

Alguém se agarrou a uma presença
Com sorriso poupado e olhar profundo.
Olho-o para dentro, para dentro de mim,
O exterior é um ornamento vagabundo,
Emaranhado de frases, silhueta do fim,
Farpas antigas que deixaram de embaraçar,
Olho-o para dentro, olho-me a mim,
Espelho de uma morte por decifrar.

O seu interior como que para mim uma obra sapiente
A acenar-me tranquilamente do outro lado da margem,
A minha figura como que para ele uma pálida imagem
Por encaixar, triste quimera esquecida e incipiente.
Ali ficámos alheados no mesmo lado do tempo,
Uma máquina cansada na paciência do mundo,
Uma peça solta que caiu do meu ser moribundo.



P.A.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"Teoria de tudo"






Tudo está em tudo, a matéria
Desmonta-se em fragmentos de luz
Infinitos, o espírito carrega-se de carne
E ossos e segue todos os caminhos.
Volta-se o vento, as árvores são musas
Em poses indiscretas plantadas no sentido
Inverso à tempestade cósmica.
Entre o céu e a terra há em cada
Coisa parte de outra coisa, o mínimo
De cada uma é o grau menor das outras,
É impossível que deixe de o ser porque
O máximo de tudo contém todos
Os mínimos em si mesmos, e cada coisa
É grande e pequena à medida dos mundos
Que partem dos sentidos, enfrentam
O caos e criam o sonho e a técnica.
Em cada coisa o tempo é pouco e bastante,
Não nasce nem morre, é um fogo contínuo
Pelos meandros dos homens, peões atirados
A um lugar de cinzas, utopia de vontades
Insurgidas em cifras de saber rotundo.
Em cada coisa há uma espiral
Progressiva e regressiva tomada
Por vulcões maiores que acabarão
Noutras causas sem nome, tempo
Que não nasce nem morre,
Onde se vive e não se foge…



P.A.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Incerteza da razão








A incerteza da razão
Sente-se por perto
Se guardas uma intenção
Sob o céu encoberto
E delicadeza dos ombros
Que se abate num suspiro
Entre mar de escombros
E olhar indeciso.
A lógica do amor
Perde-se no egoísmo
De um beijo incolor
E um simples silogismo
De braços caídos
A pouca distância
De sonhos vencidos
Sem grande importância.
Mas a clareza dos sentidos
Toca-se na luz ausente
Se soltas uma confissão
Como um astro transparente
E furor do teu rosto
Que se abre em sorrisos
Entre a brisa escalada de Agosto
E lábios de cobre concisos.
É assim que te sinto
Longe aqui ao meu lado
Neste estranho labirinto
De prazer desencontrado
Onde o amor é saudade
Quando foge e se admira,
Paixão da verdade
Razão da mentira.



P.A.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A cidade










Resguarda-te do instante num abraço,
A cidade cresce voraz sem princípio
Nem ermo, um amplo embaraço de tons
Que nos chegam sem prévio aviso,
Esgrimidos no vácuo súbito sem termo,
Impondo outro tempo entristecido.
Isola-te do contínuo temporal sem história
E significado, e olha a sequência das mãos
Sobre o cristal polido da pele, dividida em
Grãos que marcam o momento consumado.
Evade-te do arresto das horas engolidas
Sem sentimento, a cidade são avenidas
Frívolas, carros comprimidos, edifícios
Inconsoláveis, pessoas sós no grande
Pavimento abstracto de vidas esquecidas.
Sai da rede de fluxos infindáveis,
Espalhada passivamente no acervo de rostos
Programados, dormentes introspectivos,
Quase impiedosos, anjos inconsequentes
Que vagueiam por universos paralelos entre
A indiferença e outros ideais furtivos.
Regressa por momentos à fantasia
Dos espaços, à disposição dos afectos,
À timidez do encanto, a um tempo
Adquirido que se possa encontrar,
Porque este é o nosso lugar.




P.A.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Espero e sinto





Espero e sinto o desapego
Do tempo, tudo o que sobra
De valor sem lei ou segredo
Numa jornada que não se cobra.
Espero e sinto o latejar
Da luz no peito rechaçada
Como a liberdade que conduz
A existência despojada.
Espero e sinto uma viagem
Sem rasto, impressão latente
De que a vontade me prende
Como um lastro a esta terra
Evidente, última estada
Antes da partida desafortunada


P.A.