segunda-feira, 27 de julho de 2015
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Fim...
Sou escravo do tempo finito,
Um bocejo de alma lacónico
Que se consome num só grito,
Zunido boémio, sentido Irónico.
O espírito lento não se eleva acima
Da mesquinhez do corpo mórbido,
Repete-se em torno da estúpida rima
Que alimenta este insecto sórdido.
Fechei-me num buraco bafiento
Como pedra dura de larvas coroada,
Contemplo por dentro o fim do tempo,
De olhar sereno e alma ventilada…
P.A.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Sonho inventado
Tudo o que se consome sem escapatória
Como uma corda apertada e um náufrago
Esgotado contra um sonho inventado.
Deus é um código mutável e ondas arrasadas
De matéria instável, dias decifrados,
Construções que são desejos piramidais de criança,
Arrecadam o sentido fundado da esperança,
Comandada pelos infinitos grãos atirados
Na espessa seiva do início elementar do universo,
Um ponto, numa gota, uma gema concebida
Na convergência imponderável e volátil do éter.
É pelo silêncio da noite que a morte
Sossega na sua incompreensão,
Que o amor desperta na sua infusão
Contemplativa de quem descarta
Qualquer explicação absurda,
E não se conforma com a luz nocturna
Que choca contra a miséria do corpo
Despido na raça e fonte desregrada
De um peso sem freio e absorto.
Os olhos antevêem visões interiores
À velocidade desastrosa e casual
Da sensibilidade e entendimento originais,
Estagnam nas saliências obtusas do tempo,
Ficam incrédulos ao conhecerem a rudeza
Dos destroços da carne, abandonados
No braseiro caudaloso das águas infernais.
As construções interpelam a insignificância dos homens
Perdidos no caminho obscuro das cifras mundanas.
Edificam-se montanhas de coisas à medida
Do desespero invocado pela ilusão das sombras,
O medo une-se à existência pelo contraste das evidências,
Pela visão triste das ideias a afastarem-se para longe
De todos os esforços, na voracidade insana das ondas
Que levarão ao destino estimado do fim, sempre eterno,
Regulado pela cegueira fecunda, aos tropeções da fala,
Esgotamento da escrita, visão maldita.
É pelo silêncio da noite que se ouve o gemido
Por trás da muralha intransponível entre estar e acabar,
Entre a luz edificada e o crepúsculo do tempo ferido,
Afundado na angústia do espanto, sonho inventado
À medida de um náufrago, esboço de um condenado,
Perdido da impetuosidade devastada da idade do fim.
Preenche-se o quadro do tempo com cores imprevisíveis,
Abandonadas à sorte entre o segredo dos mortos
E aquilo que flúi no entendimento dos vivos.
Haverá alguém que componha os destroços
A um canto da memória, sem remorsos,
Explique o naufrágio do tempo a engolir vontades
E construções dispersas, almas submersas,
Energias acumuladas nas caves da terra,
Onde a morte renasce e a esta vida se encerra.
Haverá alguém que resvale na loucura da consciência,
Preso no atropelo dos factos por desvendar,
Acorde no precipício da luz antes da vida acabar
E pôr outro náufrago no seu lugar.
P.A.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Aroma de uma ideia
Todos os sentidos que se libertam no momento,
A essência carnosa que se assume numa única veia,
O bálsamo irrecusável coincidente num só tempo.
És a irreverência original em que se transforma a vontade
De absorver os encantos estirados no teu perfume exacto,
A natureza que se desvela pura e se fixa na singularidade
Inconstante do teu regaço, quase insultuoso e insensato,
Como a impossibilidade de conter a disciplina corporal,
Entrelaçada em ondas trémulas de prazer olfactivo,
Numa planície de fragrâncias nascidas do recato carnal,
A entranhar-se sussurrante pelo calor sensitivo.
És a cedência firme de um encontro perfumado
Suspenso nos meandros da utopia corpórea,
A arcádia boreal do imenso espírito derramado
Que se expande para sempre na minha memória…
P.A.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Não posso ver-te
Não posso ver-te porque sempre te perdi
Em todos os tempos e lugares dispersos,Por entre a janela lúgubre em que senti
A memória única do teu corpo imerso,
Num mar calmo de incontestável perdição,
Onde te encontro em sonhos diversos
E intenso abandono sem explicação.
Posso sempre sentir-te porque reclamas
Uma beleza entranhada de mistério ardente,
A implosão dos sentidos, coração em chamas,
Todas as vontades infinitas de quem sente,
Todos os prazeres ligados de genuína paixão.
Não posso ver-te porque sempre te desconheço
Pela imperfeição cega de não saber encontrar-te,
Apenas posso sentir-te porque não te esqueço,
Apenas posso perder-te e amar-te…
P.A.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Mar cinzento
A minha natureza é mar cinzento,
Utopia de sonhos e cor turquesa,
Estado enfermo, descontentamento,
Contradição, permanente incerteza.
É um pulsar de motivos sem fim,
Um lugar de ideias que não existe
E que se revolta contra mim
Numa longa angústia que resiste.
É uma inconstância que sempre anoitece
Enquanto acompanha os reflexos de luz,
Uma felicidade que nunca acontece
Como o amor que não se introduz.
É uma pancada mortal e ofuscante
Que se sofre sem querer
Na simples razão de viver
Esta banal condição errante.
É uma melancolia enternecedora
E própria do fim dos tempos,
A morte cega e esmagadora
Que expele todos os sentimentos.
A minha natureza é mar cinzento
Voo nocturno, mergulho solitário,
Não é uma arte nem um dom,
É um trilho contado em outro tom,
Que resume o poema necessário.
P.A.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Quanto tempo falta?
Tempo, tens tempo? Quantas horas
Te faltam para o ponteiro chegar ao zero
E estancar todas as memórias que choras
Dos dias que sobram e já não espero?
Quanto tempo resta para respirares o mundo?
A espiral dos ventos, o fumo irreflectido
Que se atravessa na estrada sem fundo,
Instante petrificado de sentido
Em tudo o que não serás, plantado
Longe do possível, na sala sem enredo,
Ânsia de uma morte em segredo.
Um dia poderá já ser tarde amigo,
Quando a vida se fechar numa recriação
Obscura e eterna, a sós contigo,
Num corpo imobilizado de solidão
À esquina de uma avenida,
Onde passam pequenos sedimentos
De outra morte repetida.
Um dia serás uma folha em branco
Sempre por preencher, o vazio dos tempos,
Uma lápide gravada no manto
Investido de todos os esquecimentos,
O campo que guarda os traços do rosto
Na lógica invertida de sentimentos,
No fim da tua existência eleita,
Na morte serene e refeita.
P.A.
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