sexta-feira, 25 de setembro de 2015

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Abismal





As veias dilaceradas, a boca seca e desapontada,
O silêncio das crateras oculares, o espelho do infinito
Sem retorno, ciente num corpo sem descanso e abalado
Pelas imprecisões da existência implacável.
As mãos entrelaçadas numa angustia incandescente,
Vibrante, apunhalada ao encontro do tempo imprudente,
Construído na ironia de contrários, a apelar à totalidade
Das coisas subjugadas ao equilíbrio da morte.
A cabeça vazia pensando espaços etéreos,
Ideias improváveis seladas em círculos obrigatórios,
Magma cerebral a escorrer pela opacidade da matéria
Até às entranhas efusivas da criação.
Sobeja a seiva de um poema sobre a morte,
Amostra de veias dilaceradas, o pulsar do fim,
Amalgama de partículas fieis a uma existência
Ancorada ao fluido de outra passagem temporal,
Ao clamor do universo e um pingo de sangue corrido.
Resta-me fumar o incontornável labirinto da vida,
Esfumar as indefinições da vida num cigarro isolado,
Regressar ao conforto suspenso de um acto sem fundo,
Virar-me em tragos ardentes e roçar a garganta
Até sentir o halo do corpo contra a suposição do tempo.
Não quero, vou aguentar, vou resistir, lutar sozinho
Com a condição única e falível que me obriga a interceptar
O mundo, expondo-me a uma viagem sem regresso na vertigem
Do fumo que se espalha pelo peito aberto das circunstâncias,
Que me levará à dissolução inevitável em partículas nascentes,
Que me levará àquilo que sou, àquilo que não verei


P.A.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O amor é...







O amor é o grande torpor da cidade,
Uma passagem trémula e fingida
Que chega a ser uma pequena verdade
Até se perder na paixão repetida.

O amor é uma fantasia atordoada,
Desconcertante, que falha no tempo
De Outono como a luz desviada,
E perde a viva cor pela voz do vento.

O amor é a contemplação da morte,
O impossível dos vivos e esperançados,
Um estado precário de vidro e corte
Que se esvai em corações abandonados.

O amor é a coroação dos infiéis e enganados,
O topázio que não se hesita em quebrar ao meio
Enquanto se vem a saber que já não são amados,
Porque de promessas têm eles o frigorífico cheio…



P.A.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Para além das palavras






Esgotei as palavras meramente
Ao ouvir-te o interior de excepção,
Ao escutar-te verdadeiramente
E embalar-me na profunda intenção
Do valor da tua voz singular,
Esvaziar-me da minha posição
E atento permanecer sem falar.

Antes do comum significado
De um discurso entendido,
Está a condição do ser dado
E o esforço de ser conhecido

Todas as palavras são residuais,
Imperfeições do eu tangível,
Código cru entre almas desiguais
Em que o teu ser é indizível.

A tua fala é o sentido original
No eixo da existência atendível,
Um poder criador não nominal
Em que o teu ser é indizível

Quando tu falas passas a existir
Na pura linguagem permanente
Como todas as formas se sentir
Que a tua voz torna presente.

Uma pausa no momento exacto,
Um silêncio para poder sentir-te,
E se te respondo de imediato
É porque não estou a ouvir-te…



P.A.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Fim...






Sou escravo do tempo finito,
Um bocejo de alma lacónico
Que se consome num só grito,
Zunido boémio, sentido Irónico.
O espírito lento não se eleva acima
Da mesquinhez do corpo mórbido,
Repete-se em torno da estúpida rima
Que alimenta este insecto sórdido.
Fechei-me num buraco bafiento
Como pedra dura de larvas coroada,
Contemplo por dentro o fim do tempo,
De olhar sereno e alma ventilada…


P.A.