quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Singularidade Absoluta




Fotografia de:  Rute Talefe


Não imaginava a morte na sua encenação
Muda e sombria,
Com leves murmúrios pela noite intermitente
E silenciosa.
Não vivia cada instante como uma perspectiva
Que se antevia,
Um conforto distante, uma pequena acção engenhosa.


Não conhecia o corpo inteiro na singularidade
Absoluta,
Intimamente imerso na tarefa oculta
E vital,
Preso apenas a uma causa ínfima
E involuta,
Distinta carcaça simplesmente esfumada e frugal.


Não ouvia o silêncio por dentro da porta
Sem motivo aparente,
O voo rasante da alma como o som do violoncelo
Pela tarde morta,
O fim sereno estendido a um desejo insolvente,
Numa quietude expectante,
Perfeito paciente do tempo constante.


Sinto só este composto único de direcções
No grande universo de relações.
Um dever maior, um aproveitamento eficaz
Da missão de paz
Tão clara e suficiente que me é pessoalmente conferida,
A necessidade de estar e uma confrontação
Definida.

Tenho a certeza que o tempo é assim um traço fundo
Pela interioridade,
Uma estrada sem princípio nem fim, uma vida a correr parada
Pela eternidade.



P.A.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Luas






O que se pode perguntar a todas as luas?
Nada porque elas são tudo o que são,
Existências simples e paixões nuas,
E nada se pergunta nesta condição
De ser ao luar, entre janelas e ruas,
Para não desviar a natural intenção.

Como se podem capturar as luas
E a suas paixões? e com elas cada pedra
E cada árvore que assim permanece?
Não sei porque elas são a solidão
De um pequeno pedaço que padece
Entre o céu e o parapeito da ilusão.

Como se pode ser em vez de ir sendo,
Aquecer o rosto contra a noite solene,
Abraçar a fantasia para além da realidade?
Só sei que vou viver esta questão perene
E debruçar-me sobre uma simples vontade
De sonhar em sair à rua onde ainda há luar.



P.A.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eternidade






Vamos desgovernar-nos pelos corpos bêbados,
Amarmo-nos no tumulto da idade e fundirmo-nos
Como lobos feridos entre folhas maduras,
Arrancar orgasmos pela boca como o sal de um Deus marítimo,
Invadirmo-nos de nós numa imagem de fogo excessiva
Até arranhar a respiração divina, inverter o amor comum,
Jorrando-o em relâmpagos cegos e milagrosos

Estremecer num ar quente a cruzar com furor
Os olhos raiados de desejo, pálpebras cerradas em redor da luz
Quebrada pelo chão a estender-se num sopro leve e remoto
De cada instante inseparável.
Deus há-de vir resgatar-nos por dentro,
Na intimidade inundada de sangue a fervilhar
Em toques ritmados, acolher-nos durante uma
Dança suprema e obstinada,
Alimentada por impulsos ferozes,
Contracções abruptas, labaredas ocultas
E faúlhas ávidas do excesso, até à fusão
Púrpura e vertiginosa do amor.
E deus há-de vir, deus há-de vir
Num exercício vibrante de carne e suspiros,
Irrompendo das têmporas dilatadas pela fervura do caos,
Para devolver a tranquilidade intocável do tempo inscrito.

E quem sabe onde estamos? Quem somos?
Quem imagina o dom da nossa respiração
Pelas linhas do corpo a unirem uma vontade
Indefesa e cega sobre o mundo?
E qual dos mundos pode corrigir ou apagar
O brilho contido dos corpos,
A pureza táctil que se desfaz em carícias repetidas,
O modo exacto de um abraço que não morre nunca,
O torpor inebriante de que não há mais nada
Para além deste reduto corpóreo gravado
Em códigos cutâneos, sendas de luz invisível,
Gestos divinos sacudidos e inomináveis?



P.A.



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ausência do mundo



Sei que vivi a ausência do mundo
Para chegar a mim,
Exigência de reconhecimento
Sobre uma forma desinteressada
Que me afastou sem fim,
Uma voz insana
Vinda do absurdo consciente,
Entre a presença mundana
E uma natureza evanescente.

Para que serves tu agora
Angustia espalhada pelo peito,
Depósito de pedras arrancadas
Da memória?
Que fazes tu agora sozinho
Neste caminho estreito,
Ponto de partida de uma vida
Irrisória?

Empresta-me um passado,
Outro enredo que não esta
História vulgar.
Recorda-me outro sentido,
Outro lugar, para que não desista
Tão cedo.

Diz-me que não sou eu assim
Um sujeito enviesado
Em confronto com o vazio
Da missão.
Diz-me que sou outro e não eu
Próprio um destroço desta
Alienação.
Assegura-me que o desespero
É o remédio provável
E a morte uma solução
Confortável

P.A.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Abismal





As veias dilaceradas, a boca seca e desapontada,
O silêncio das crateras oculares, o espelho do infinito
Sem retorno, ciente num corpo sem descanso e abalado
Pelas imprecisões da existência implacável.
As mãos entrelaçadas numa angustia incandescente,
Vibrante, apunhalada ao encontro do tempo imprudente,
Construído na ironia de contrários, a apelar à totalidade
Das coisas subjugadas ao equilíbrio da morte.
A cabeça vazia pensando espaços etéreos,
Ideias improváveis seladas em círculos obrigatórios,
Magma cerebral a escorrer pela opacidade da matéria
Até às entranhas efusivas da criação.
Sobeja a seiva de um poema sobre a morte,
Amostra de veias dilaceradas, o pulsar do fim,
Amalgama de partículas fieis a uma existência
Ancorada ao fluido de outra passagem temporal,
Ao clamor do universo e um pingo de sangue corrido.
Resta-me fumar o incontornável labirinto da vida,
Esfumar as indefinições da vida num cigarro isolado,
Regressar ao conforto suspenso de um acto sem fundo,
Virar-me em tragos ardentes e roçar a garganta
Até sentir o halo do corpo contra a suposição do tempo.
Não quero, vou aguentar, vou resistir, lutar sozinho
Com a condição única e falível que me obriga a interceptar
O mundo, expondo-me a uma viagem sem regresso na vertigem
Do fumo que se espalha pelo peito aberto das circunstâncias,
Que me levará à dissolução inevitável em partículas nascentes,
Que me levará àquilo que sou, àquilo que não verei


P.A.