quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Kremlin II

Kremlin




Toda a cidade de Moscovo converge para o Kremlin onde nasceu o sacrifício de um povo fortificado pelo poder tenaz dos seus chefes, onde se acaba sempre por desembocar numa vontade férrea e superior de completar a vida.




P.A.


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Todos os poemas





Todos os poemas são uma fabricação
Lenta de sentimentos que escorre
Por uma folha de papel enrolada,
Uma clareira de sons e palavras
Resgatada numa mescla de corpo
Pausada.
Todos os poemas são uma transgressão
Imprecisa de ideias que resvala
Por sulcos de sangue ao longo da matéria,
Um desequilíbrio de ausência, uma
Necessidade de presença que convergem
Para a morte concisa.
Todos os poemas são a malha invisível
Do tempo, cinzas de luz que se acendem
No momento infinito sem palavras,
Vozes de ninguém que a angústia lavra
Ciente e meticulosa, curvada no silêncio
Da terra e do infinito presente.
Todos os poetas nascem pela impossibilidade
De viver, numa encenação muda de contrários
Como a morte de um tempo intervalar,
Brotam como malabaristas no declive do espaço,
Circulam perdidos num saber rotundo e cada um
Contém na pele um mapa do mundo.
Todos os poetas têm a lucidez de um grito,
Uma raiz profunda, um eterno conflito,
São pedaços de magma original que rasgam
O solo em silêncio na direcção do fim
De um ponto inicial.


P.A.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sombras e segredos





A avenida sustém uma presença ausente,
Espólio de sombras e segredos frágeis,
Resíduos depositados em patamares de luz
Deixados vazios pela noite que dormirá,
Sendo que a noite não dorme mas consente,
Não é vista mas é viva de estar e sentir,
Sem morada, no minuto exacto e consciente,
Para além de tudo aquilo para que se nasce,
No declive acidental esvaído lentamente.
Sou sempre eu neste espaço e uma cama ao alto,
Olhos pousados numa folha e um corpo sem saída
Senão a de cumprir uma essência irreversível
Pelo caminho do acaso e imponderável do sujeito.
A mesa junto à janela no outro canto da sala
Marca o momento livre e inalienável do tempo,
Que me acolhe demoradamente na síntese consumada
Desta presença e me deixa sem vontade de escrever.
Faltam-me razões de ser mais para além do aqui e agora
Pregado no corpo actual que arde interiormente
Ao longo das coisas que me rodeiam pacientemente.
Faltam-me motivos para escrever para além da noção
De ser eu uma carga material num instante particular,
Intervindo livremente por dentro do tempo indefinido.
O presente dilata-se em recordações e intenções vãs,
Arrasta-se num fantasma que aguarda enquanto caminha,
Toca todos os instantes com e sem propósito,
Numa interpelação leve da consciência sumária.
Faltam-me desejos de viver para além de sombras e segredos ,
De tudo o que sobeja dos dias e noites inúteis,
Por isso não quero ser nem escrever mais,
Quero repousar na sombra desinteressada
E viver uma vida indesejada…



P.A.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Singularidade Absoluta




Fotografia de:  Rute Talefe


Não imaginava a morte na sua encenação
Muda e sombria,
Com leves murmúrios pela noite intermitente
E silenciosa.
Não vivia cada instante como uma perspectiva
Que se antevia,
Um conforto distante, uma pequena acção engenhosa.


Não conhecia o corpo inteiro na singularidade
Absoluta,
Intimamente imerso na tarefa oculta
E vital,
Preso apenas a uma causa ínfima
E involuta,
Distinta carcaça simplesmente esfumada e frugal.


Não ouvia o silêncio por dentro da porta
Sem motivo aparente,
O voo rasante da alma como o som do violoncelo
Pela tarde morta,
O fim sereno estendido a um desejo insolvente,
Numa quietude expectante,
Perfeito paciente do tempo constante.


Sinto só este composto único de direcções
No grande universo de relações.
Um dever maior, um aproveitamento eficaz
Da missão de paz
Tão clara e suficiente que me é pessoalmente conferida,
A necessidade de estar e uma confrontação
Definida.

Tenho a certeza que o tempo é assim um traço fundo
Pela interioridade,
Uma estrada sem princípio nem fim, uma vida a correr parada
Pela eternidade.



P.A.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Luas






O que se pode perguntar a todas as luas?
Nada porque elas são tudo o que são,
Existências simples e paixões nuas,
E nada se pergunta nesta condição
De ser ao luar, entre janelas e ruas,
Para não desviar a natural intenção.

Como se podem capturar as luas
E a suas paixões? e com elas cada pedra
E cada árvore que assim permanece?
Não sei porque elas são a solidão
De um pequeno pedaço que padece
Entre o céu e o parapeito da ilusão.

Como se pode ser em vez de ir sendo,
Aquecer o rosto contra a noite solene,
Abraçar a fantasia para além da realidade?
Só sei que vou viver esta questão perene
E debruçar-me sobre uma simples vontade
De sonhar em sair à rua onde ainda há luar.



P.A.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eternidade






Vamos desgovernar-nos pelos corpos bêbados,
Amarmo-nos no tumulto da idade e fundirmo-nos
Como lobos feridos entre folhas maduras,
Arrancar orgasmos pela boca como o sal de um Deus marítimo,
Invadirmo-nos de nós numa imagem de fogo excessiva
Até arranhar a respiração divina, inverter o amor comum,
Jorrando-o em relâmpagos cegos e milagrosos

Estremecer num ar quente a cruzar com furor
Os olhos raiados de desejo, pálpebras cerradas em redor da luz
Quebrada pelo chão a estender-se num sopro leve e remoto
De cada instante inseparável.
Deus há-de vir resgatar-nos por dentro,
Na intimidade inundada de sangue a fervilhar
Em toques ritmados, acolher-nos durante uma
Dança suprema e obstinada,
Alimentada por impulsos ferozes,
Contracções abruptas, labaredas ocultas
E faúlhas ávidas do excesso, até à fusão
Púrpura e vertiginosa do amor.
E deus há-de vir, deus há-de vir
Num exercício vibrante de carne e suspiros,
Irrompendo das têmporas dilatadas pela fervura do caos,
Para devolver a tranquilidade intocável do tempo inscrito.

E quem sabe onde estamos? Quem somos?
Quem imagina o dom da nossa respiração
Pelas linhas do corpo a unirem uma vontade
Indefesa e cega sobre o mundo?
E qual dos mundos pode corrigir ou apagar
O brilho contido dos corpos,
A pureza táctil que se desfaz em carícias repetidas,
O modo exacto de um abraço que não morre nunca,
O torpor inebriante de que não há mais nada
Para além deste reduto corpóreo gravado
Em códigos cutâneos, sendas de luz invisível,
Gestos divinos sacudidos e inomináveis?



P.A.