sábado, 8 de outubro de 2016

Já fui no futuro






O que farei talvez amanhã

toma forma no presente,
Será uma antiga construção vã
erguida em lugar diferente
que o tempo me fará
parecer igual.

O futuro provável
Já o conheço de páginas
escritas em linhas
circunscritas a um pedaço
de pão duro como
a lembrança de tudo
o que faço.

Certo tenho somente passado 
e fome de encontrar um sentido,
nada serei por isso além do nome
gravado no tempo concedido.


P.A. 















segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Por vezes...



                                                       Foto de: Alexandra Amaral




Por vezes estás só numa floresta
intangível de tons e discórdias,
E é preciso resgatar-te no crepúsculo
Desleal de todas as ameaças,
Por meio do labirinto medonho
De incertezas e contradições,
Cobrir-te de insondáveis carícias
E vivificar o teu sonho
Que ainda vibra nos lábios
Desmaiados, perfeitamente
Delineados no sabor febril
De tantas Histórias.
É preciso trazer-te para este lado
E reduzirmos o infinito
Desconcerto a um abraço inteiro,
Sem receio das palavras
Que foram caindo outrora
Como folhas inesperadas
Entre ramos de insónias 
E agonias roucas.
Por vezes estás só
Entre muitas ideias
Que te aclaram a timidez
E inocência do corpo,
E é preciso descobrir-te
Todos os tesouros recriados
Numa senda de luz constante,
Até encontrar o elmo solitário
Dos afectos em fios púrpura.
Por vezes tornas-te num desejo
Impossível de alcançar
No fim de tantas erupções
De prazer premiado
No anjo do teu recato,
És tudo em concreto
Quando estás só
Em abstracto.


P.A.


domingo, 11 de setembro de 2016

O que sou





Quem quiser saber onde estou
não procure no meio da sala,
sou uma breve lembrança que recuou
perante a inevitabilidade da vida,
deverá por isso procurar noutra ala
um corpo dividido na porta de saída.

Quem quiser saber o que penso
não espere outras explicações
para além do espanto imenso
no silêncio de meras recordações
sobre um tempo raro e desfeito,
desde que a vida começou a contar
e passou a arder-me no peito,
sentindo o que penso sem falar.

Quem quiser saber para onde vou
não me siga por qualquer razão,
toda a minha existência se atrasou
perante a incompreensão do mundo,
será sempre acompanhar-me em vão
e não regressar desse estado profundo. 


P.A.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Metro









Consta que os Moscovitas desde o início se mostraram resistentes à ideia de viajarem debaixo do chão. Talvez por isso, para minimizar essa estranheza, tenham adornado os túneis subterrâneos como os espaços à superfície.


P.A.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Contramarcha





Todos, todos sempre a crescer,
Uns mais que outros certamente,
Acumular infinitamente até morrer,
Esquecendo o que é ser e viver.
Economia do dinheiro,
Percentagens, competição,
Dominar o mundo inteiro
Até rebentar o coração…
Torres vertiginosos de poder
E especulação, a vida em contramarcha
Sem recordação, numa corrida de ratos
De Vestidos e fatos,
Sempre rentável
Deveras alienável,
Sempre em frente, em vão,
Coração indiferente a crescer
Infinitamente até deixar
De bater…


P.A.

"A ponte é uma passagem para..."



P.A.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Onde estás ?






Ainda me lembro de todas as pontes
Que me ensinaste a construir,
Peça a peça, sobre água, entre montes,
Até o encanto deixar de fluir.

Ainda me lembro, mãe, do teu grito
A perfurar a raiz do coração,
A romper um corpo interdito,
A manter-me quieto, a dizer não.

Ainda me lembro, mãe, de alguém
A afastar-se numa névoa indolente,
E eu estancado sem saber, de repente,
A ficar sem esperança de ninguém.

Ainda me lembro, pai, da tua visão
Sobrevivente no silêncio da casa,
Da ausência de uma explicação
Para o impiedoso corte de uma asa

Ainda me lembro, pai, de alguém
Que deveria segurar-me a mão,
Não sendo já o grito da minha mãe,
Mas a partida do meu irmão.


P.A.