sábado, 29 de outubro de 2016

"A mística do instante"




Depois de ler as primeiras páginas do livro "A mística do instante", de José Tolentino Mendonça, vi-me obrigado, desde logo, a celebrar a lucidez e profundidade da sua escrita, emanada de uma experiência humana integral de corpo e espírito, unidos numa presença permanente e fecunda com todos os momentos que nos são dados a viver, e dos quais não existe escapatória se quisermos caminhar com significado ao longo das etapas concretas e autênticas que nos ensinam "...em cada fragmento o infinito, a ouvir o marulhar da eternidade em cada som, a tocar o impalpável com os gestos mais simples, a saborear o esplêndido banquete daquilo que é frugal e escasso, inebriar-nos com o odor da flor sempre nova do instante".


Celebremos o momento em que os sentidos de amortizam numa síntese aberta e relaxante, quase anestesiante, deixando de filtrar os fenómenos como rotinas dadas e necessárias, para quebrarem a película real e participarem na essência particular das coisas. E a essência deverá ser algo que nos abraça e acolhe num estado corporal vibrante e enternecedor da vida. É o que sinto, e o que sinto encarna a minha história e o pulsar espontâneo de mim com o outro, que se afigura compensador, fascinante e até impossível. A "Mística do instante" retoma a simplicidade que rege o nosso caminho originário, a sua subsistência, aproveitamento e entrega perante a energia que nos circunda. Será sempre uma contemplação inconformista que se processa em pequenas esperanças de efeito imediato e renovado. Implica o desejo de aventura do inexplicável, do indizível, tal como a experiência do amor que coexiste num espaço e tempo fora do ritmo comum. É o caminho interior percorrido pela união entre céu e terra, sinalizado intensamente pelos sentidos, enriquecido pela vontade de segregar novos ciclos vitais, a cada dia, todos os dias que a eternidade se cumpre a cada instante, em que nos consumimos com prazer e dor como um puro charuto. 


A presença é o concreto da existência e o instante a janela de oportunidade de que dispomos para viver, sentir, reflectir e amar. E é por esta flutuação existencial que se dá o encontro com o divino como experiência de fundo que toca o interior vazio de nós, na relação com o finito e seu significado único e efectivo. O instante não é um tempo neutro e rotineiro, mas um sabor prolongado pela respiração inefável que incorpora a fusão plena dos sentidos com a consciência de se estar a viver aquele momento na impossibilidade de outro. É na síntese momentânea de todos os elementos combinados por colisões atómicas intervalares, na mistura de acaso e necessidade, liberdade e determinação, que nos tornamos aprendizes de uma ordem transcendente. É pelo instante vivido na sua plenitude que nos apercebemos que somos nós próprios uma espécie de polegar de Deus, que um dia nos embutirá na pele do universo.    


P.A.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Vermelho





És semente vermelha no amor
e não paras perante a cor,
avanças no rubor do desejo
incandescente de um só beijo
até ao romper do sonho
ofegante e medonho
que estremece delirante
no teu corpo inconstante,
depois gigante vermelha
fruto de uma centelha
que volta à raiz da cor,
essência do teu amor...


P.A.

sábado, 8 de outubro de 2016

Já fui no futuro






O que farei talvez amanhã

toma forma no presente,
Será uma antiga construção vã
erguida em lugar diferente
que o tempo me fará
parecer igual.

O futuro provável
Já o conheço de páginas
escritas em linhas
circunscritas a um pedaço
de pão duro como
a lembrança de tudo
o que faço.

Certo tenho somente passado 
e fome de encontrar um sentido,
nada serei por isso além do nome
gravado no tempo concedido.


P.A. 















segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Por vezes...



                                                       Foto de: Alexandra Amaral




Por vezes estás só numa floresta
intangível de tons e discórdias,
E é preciso resgatar-te no crepúsculo
Desleal de todas as ameaças,
Por meio do labirinto medonho
De incertezas e contradições,
Cobrir-te de insondáveis carícias
E vivificar o teu sonho
Que ainda vibra nos lábios
Desmaiados, perfeitamente
Delineados no sabor febril
De tantas Histórias.
É preciso trazer-te para este lado
E reduzirmos o infinito
Desconcerto a um abraço inteiro,
Sem receio das palavras
Que foram caindo outrora
Como folhas inesperadas
Entre ramos de insónias 
E agonias roucas.
Por vezes estás só
Entre muitas ideias
Que te aclaram a timidez
E inocência do corpo,
E é preciso descobrir-te
Todos os tesouros recriados
Numa senda de luz constante,
Até encontrar o elmo solitário
Dos afectos em fios púrpura.
Por vezes tornas-te num desejo
Impossível de alcançar
No fim de tantas erupções
De prazer premiado
No anjo do teu recato,
És tudo em concreto
Quando estás só
Em abstracto.


P.A.


domingo, 11 de setembro de 2016

O que sou





Quem quiser saber onde estou
não procure no meio da sala,
sou uma breve lembrança que recuou
perante a inevitabilidade da vida,
deverá por isso procurar noutra ala
um corpo dividido na porta de saída.

Quem quiser saber o que penso
não espere outras explicações
para além do espanto imenso
no silêncio de meras recordações
sobre um tempo raro e desfeito,
desde que a vida começou a contar
e passou a arder-me no peito,
sentindo o que penso sem falar.

Quem quiser saber para onde vou
não me siga por qualquer razão,
toda a minha existência se atrasou
perante a incompreensão do mundo,
será sempre acompanhar-me em vão
e não regressar desse estado profundo. 


P.A.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Metro









Consta que os Moscovitas desde o início se mostraram resistentes à ideia de viajarem debaixo do chão. Talvez por isso, para minimizar essa estranheza, tenham adornado os túneis subterrâneos como os espaços à superfície.


P.A.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Contramarcha





Todos, todos sempre a crescer,
Uns mais que outros certamente,
Acumular infinitamente até morrer,
Esquecendo o que é ser e viver.
Economia do dinheiro,
Percentagens, competição,
Dominar o mundo inteiro
Até rebentar o coração…
Torres vertiginosos de poder
E especulação, a vida em contramarcha
Sem recordação, numa corrida de ratos
De Vestidos e fatos,
Sempre rentável
Deveras alienável,
Sempre em frente, em vão,
Coração indiferente a crescer
Infinitamente até deixar
De bater…


P.A.