terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sobre quem passa





 
Brisa de cheiros e sabores
É a memória de quem passa
E não procura outra coisa
Além do vazio de uma praça

A inspiração cansa-se no excesso
Dos prazeres imponderáveis
Dissimulados no tempo breve
E pressentimento que trespassa

A sedução indelével
De quem não passou
Mas ficou no vazio
E certeza da praça


P.A.

sábado, 17 de novembro de 2012

Não existe




O amor não existe como o pensamos
Nem como o sentimos quando pensamos
Que é amor
Só existe como uma ausência presente
Que se une por fora e por dentro
Sem começo ou ligação

O amor não existe como o conhecemos
Nem como o exageramos quando pensamos
Que é amor
Só existe como mágoas pisadas, ilusões resistentes,
Frases mudas que se entrelaçam na condição
Aparente e adiada de tudo

O amor não existe como se ama
Nem como o encontramos quando pensamos
Que é amor
É uma intenção que se move parada
Como a fadiga das ondas que nascem
Do mar consolado para morrerem
No início de outras, movimento
perpétuo que se precipita e desvanece
Na espuma de prazer

O amor que escrevi não existe
Mas persiste dos dois lados da porta
Suspensa, como a falta de palavras
Que ocupa o seu espaço
Reservado a ser.


P.A.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Eternidade III




É do espectáculo da vida que emana a luz que nos conduzirá ao eterno repouso...


P.A.


Eternidade II




É no silêncio dos gestos e dos olhares que se revela a profundidade das intenções, dos desejos, dos sonhos, dos compromissos…



P.A.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eternidade





Gosto de ti como o cerne das coisas,
Ao rubro, a arderem de verdade
Como os olhos que cegam de amor e vontade,
Num corpo gladiado se sentidos e prazeres,
Expelido pelo suspiro derradeiro que é a eternidade.
Gosto de ti e nem sei como, quanto e onde.
Como uma esperança permanente sobre aquilo
Que o corpo toca e transforma para além de tudo,
Uma força convicta de que não dependes de nada
Para que se cumpra o destino selado no teu peito,
Que tudo guarda sem prender.
Gosto de ti na imperfeição do tempo e desilusão dos dias,
Porque assim se justifica a intenção de ser,
De percorrer um caminho,
De escolher um lugar,
De alguém encontrar.

P.A.

domingo, 7 de outubro de 2012

Enquanto criança





Enquanto criança o tempo era maravilhosamente lento, amplo, imprudente, esquecido no leito da casa encantada, à espera de nada que não fosse encher os olhos de empenho em cada sonho novo. À espera de nada que não fosse um grande canto invisivelmente espalhado pelo ar sem preço, uma tela infindável de horas pintadas ao sabor do riso que é a raiz da inocência. Enquanto criança o tempo se desmontava ao acaso junto ao armário de brinquedos, inspirado por ideias que corriam paradas como nuvens embaladas, à espera de nada que não fosse a graça dos dias e noites a consolar remoinhos sãos, pensamentos irreais, água e terra entre mãos. Enquanto criança puras as horas se mantinham como simples matéria contemplada, um ânimo sem fim entre não e sim até ao prazer esgotado. Guardavam devaneios nos cofres do olhar, embalados pelo desaconchego permanente dos sonhos à solta nos finos cabelos, à espera de nada que não fosse o brilho renovado das estrelas, a gargalhada de luz incandescente, a possibilidade de interrogar a vida num único momento. Enquanto criança o tempo alimentava rasgos de alegria como o sol a meio do dia, de mais alto, a explodir de loucura e consolo, colhia nos braços todos os acontecimentos e sensações como se da última vez se tratasse. Nunca se sabe quando é a última vez que o corpo se ocupa dos encargos do seu fundamento, deixando de perseguir os desígnios finitos que o lançaram ao mundo. Hoje arrependo-me de descurar a possibilidade de ser criança e viver num tempo único pela última vez. Envergonho-me de adiar o fogo múltiplo que invoca a sucessão dos dias num jogo de luz e emoção. Castigo-me por encerrar as horas sem alento no medo que antecipa a morte inesperada.


P.A.

domingo, 26 de agosto de 2012

Quanto Tempo?





Tempo. Tens tempo? Quanto tempo te resta? Quantas horas faltam para o ponteiro do manómetro chegar ao zero? Quantos dias ainda te sobram para respirar o mundo, a espiral dos ventos, o fumo irreflectido que se atravessa na estrada? Pesa-te o instante acabado de tudo o que não serás, a ânsia plantada sem enredo, longe do possível, por portas abertas sem recorte. Um dia poderá já ser tarde amigo, quando a vida se fechar em copas perante a possibilidade de recriação. Um dia poderá já não acontecer, quando o corpo se imobilizar numa esquina da avenida. Um dia poderá já ser a vontade a partir entre lamúrias e sedimentos acumulados. Um dia poderá já ser a solidão incapaz de alavancar o espírito, ou a recusa crónica em aceitar a mudança como condição de sobrevivência. Um dia uma folha em branco sempre por preencher pelo receio prudente e vazio. Uma lápide gravada com os anos esquecidos no tempo imprevisto. É por isso que existes mas não só por isso. O teu olhar recorda-me um futuro incompleto tornado presente, numa sucessão invertida de sentimentos que é a lógica dos afectos, o campo ilimitado de forças que rege os traços da tua face, a esperança exacta e não outra, o amor imprudente e capaz, a morte serena e refeita.


P.A.