domingo, 7 de outubro de 2012

Enquanto criança





Enquanto criança o tempo era maravilhosamente lento, amplo, imprudente, esquecido no leito da casa encantada, à espera de nada que não fosse encher os olhos de empenho em cada sonho novo. À espera de nada que não fosse um grande canto invisivelmente espalhado pelo ar sem preço, uma tela infindável de horas pintadas ao sabor do riso que é a raiz da inocência. Enquanto criança o tempo se desmontava ao acaso junto ao armário de brinquedos, inspirado por ideias que corriam paradas como nuvens embaladas, à espera de nada que não fosse a graça dos dias e noites a consolar remoinhos sãos, pensamentos irreais, água e terra entre mãos. Enquanto criança puras as horas se mantinham como simples matéria contemplada, um ânimo sem fim entre não e sim até ao prazer esgotado. Guardavam devaneios nos cofres do olhar, embalados pelo desaconchego permanente dos sonhos à solta nos finos cabelos, à espera de nada que não fosse o brilho renovado das estrelas, a gargalhada de luz incandescente, a possibilidade de interrogar a vida num único momento. Enquanto criança o tempo alimentava rasgos de alegria como o sol a meio do dia, de mais alto, a explodir de loucura e consolo, colhia nos braços todos os acontecimentos e sensações como se da última vez se tratasse. Nunca se sabe quando é a última vez que o corpo se ocupa dos encargos do seu fundamento, deixando de perseguir os desígnios finitos que o lançaram ao mundo. Hoje arrependo-me de descurar a possibilidade de ser criança e viver num tempo único pela última vez. Envergonho-me de adiar o fogo múltiplo que invoca a sucessão dos dias num jogo de luz e emoção. Castigo-me por encerrar as horas sem alento no medo que antecipa a morte inesperada.


P.A.

domingo, 26 de agosto de 2012

Quanto Tempo?





Tempo. Tens tempo? Quanto tempo te resta? Quantas horas faltam para o ponteiro do manómetro chegar ao zero? Quantos dias ainda te sobram para respirar o mundo, a espiral dos ventos, o fumo irreflectido que se atravessa na estrada? Pesa-te o instante acabado de tudo o que não serás, a ânsia plantada sem enredo, longe do possível, por portas abertas sem recorte. Um dia poderá já ser tarde amigo, quando a vida se fechar em copas perante a possibilidade de recriação. Um dia poderá já não acontecer, quando o corpo se imobilizar numa esquina da avenida. Um dia poderá já ser a vontade a partir entre lamúrias e sedimentos acumulados. Um dia poderá já ser a solidão incapaz de alavancar o espírito, ou a recusa crónica em aceitar a mudança como condição de sobrevivência. Um dia uma folha em branco sempre por preencher pelo receio prudente e vazio. Uma lápide gravada com os anos esquecidos no tempo imprevisto. É por isso que existes mas não só por isso. O teu olhar recorda-me um futuro incompleto tornado presente, numa sucessão invertida de sentimentos que é a lógica dos afectos, o campo ilimitado de forças que rege os traços da tua face, a esperança exacta e não outra, o amor imprudente e capaz, a morte serena e refeita.


P.A.

sábado, 7 de julho de 2012

Entre outros




Agora encontrei-me ao fim da tarde, acompanho-me com admiração e minuciosos passos, sem me interrogar sobre as ideias sempre presentes como os outros. Limito-me a ser num momento único, depois desapareço de mim a achar que quando voltar a encontrar-me serei o mesmo, a possibilidade de não vir a sê-lo consola-me, logo, enquanto sou consola-me a ideia de não saber o que serei, entre os outros.


P.A.

sábado, 23 de junho de 2012

Ponto de encontro




Os pássaros soprados pelo vento esquivam-se repentinamente como pedaços de papel, conhecedores do espaço até à cúpula do céu, onde os vejo desaparecer em pontos trémulos que se apagarão de interesse. O meu pai sentado no terraço de mãos entrelaçadas, lábios serenamente descaídos sem dizerem nada e a conterem tudo o que os olhos já viram. A memória dele é também a minha, até onde me é possível recordá-la. Ele está vivo, poderia estar morto, ausente, hospitalizado. Mas não, está vivo felizmente, sentado, sereno, a recordar com vitalidade tudo o que os olhos já viram e armazenaram em ficheiros prontos a serem activados. Falo dele e falo de mim, há um ponto em que nos encontramos, mais tarde ou mais cedo. Prefiro que esse ponto surja enquanto ele estiver vivo para faze-lo coincidir no concreto dos seus lábios serenamente descaídos e olhar revisto. Não se pode acabar sem o mínimo de consenso. A memória dele é também a minha, ocupei-a sem limites nos intervalos do escritório, da máquina de escrever, das noites fora de casa, das zangas com a minha mãe, das conversas entre amigos, quase sempre lentas e sem graça. Pai, a evolução das coisas trouxe um ponto de encontro, não por acaso, mas porque a repetição dos dias foi filtrando o essencial da vida, entre pássaros soprados pelo vento sem direcção até à cúpula do céu, de onde ninguém sai sem um ponto de encontro.


P.A.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pausa






Teu, só teu, o mapa do corpo, centrado em ti, no presente, presente branco filtrado pela respiração pausada, virada para dentro. O resto afasta-nos do interior, a vida efervescente assemelha-se a uma terra de ninguém que neutraliza o regresso constante ao pulsar único de nós. Pára, restabelece o contacto contigo, a solidão reflexiva é o alimento para harmonizar as funções internas do corpo, é a pausa inerte entre inspiração e expiração, auscultação das sendas do corpo tornada consciente. Teu, só teu, o mapa do corpo, retomar o fluxo energético como um grande sentimento de compaixão que se apropria suavemente das coisas. Já não é o silêncio, é uma potencia existencial que valida o caos organizado, sustentável leveza do ser expiado na pele como um pré-aviso vital, anúncio que salva o erro desgovernado da vida, e nos devolve à essência de se estar a viver em simultâneo com a natureza dos sentidos. Uma serra e um lago a nascerem na base do olhar, o céu a esvair-se no silêncio audível, a terra áspera a moer-se no paladar, o ar a elevar-se na gratidão do tacto, o resto de tudo a presentear-se pelo recato do cheiro, só teu, contigo, comigo.


P.A.

terça-feira, 1 de maio de 2012

"Cidade dos mortos"





Vivem cerca de um milhão de pessoas no cemitério do Cairo. A procura de melhores condições de vida na cidade empurrou-as para uma espécie de condomínio privado, como alternativa ao caos e à falta de espaço. Ali vivem numa comunhão terrena, vivos e mortos, onde os mortos adquirem vida e os vivos planeiam e integram a morte, serenamente, sem angústias, num plano único que é aquele que foi concebido pelo Deus misericordioso. A necrópole filmada por Sérgio Tréfaut, mostra-nos a coexistência das duas dimensões humanas, sem medos e atropelos, numa organização que se encerra a si própria como uma necessidade inquestionável. A actividade das escolas, oficinas e padarias do cemitério, desenrola-se numa linha atemporal, plena de significado, perante um fim presente e assumidamente prolongado. Os vivos cuidam dos mortos, protegem as suas casas tumulares, os mortos cuidam dos vivos, concedendo-lhes uma morada eterna.


P.A.

terça-feira, 24 de abril de 2012

"Intouchables" - "Amigos improváveis"





Sobre o filme digo o seguinte: Todos diferentes mas todos iguais na cidade incontornável, que é o espelho das relações de poder, afecto e sedução, oriundas de dois mundos, ou de outros mais que esses contêm, o dos guetos e o dos palacetes luxuosos. A descoberta dos dois mundos que se confrontam sem reservas, assumidos numa crueza e fidelidade próprias. Dois mundos onde a coragem e o receio se cruzam para se justificarem, a timidez e a ousadia se escutam e saboreiam pelo riso, o requinte intelectual, adornado e infecundo, e a razão mordaz da sobrevivência, tão real quanto esquecida, passeiam-se pela nudez das ruas de Paris. Dois mundos onde a limitação do corpo nos dá a conhecer a fuga para outros espaços de acção e prazer, e a sua irreverência e robustez se vão amansando numa revelação surpreendente de sentimentos. Todos diferentes e todos iguais quando a autenticidade do ser é a única maneira de sermos com os outros.


P.A.