domingo, 11 de setembro de 2016

O que sou





Quem quiser saber onde estou
não procure no meio da sala,
sou uma breve lembrança que recuou
perante a inevitabilidade da vida,
deverá por isso procurar noutra ala
um corpo dividido na porta de saída.

Quem quiser saber o que penso
não espere outras explicações
para além do espanto imenso
no silêncio de meras recordações
sobre um tempo raro e desfeito,
desde que a vida começou a contar
e passou a arder-me no peito,
sentindo o que penso sem falar.

Quem quiser saber para onde vou
não me siga por qualquer razão,
toda a minha existência se atrasou
perante a incompreensão do mundo,
será sempre acompanhar-me em vão
e não regressar desse estado profundo. 


P.A.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Metro









Consta que os Moscovitas desde o início se mostraram resistentes à ideia de viajarem debaixo do chão. Talvez por isso, para minimizar essa estranheza, tenham adornado os túneis subterrâneos como os espaços à superfície.


P.A.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Contramarcha





Todos, todos sempre a crescer,
Uns mais que outros certamente,
Acumular infinitamente até morrer,
Esquecendo o que é ser e viver.
Economia do dinheiro,
Percentagens, competição,
Dominar o mundo inteiro
Até rebentar o coração…
Torres vertiginosos de poder
E especulação, a vida em contramarcha
Sem recordação, numa corrida de ratos
De Vestidos e fatos,
Sempre rentável
Deveras alienável,
Sempre em frente, em vão,
Coração indiferente a crescer
Infinitamente até deixar
De bater…


P.A.

"A ponte é uma passagem para..."



P.A.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Onde estás ?






Ainda me lembro de todas as pontes
Que me ensinaste a construir,
Peça a peça, sobre água, entre montes,
Até o encanto deixar de fluir.

Ainda me lembro, mãe, do teu grito
A perfurar a raiz do coração,
A romper um corpo interdito,
A manter-me quieto, a dizer não.

Ainda me lembro, mãe, de alguém
A afastar-se numa névoa indolente,
E eu estancado sem saber, de repente,
A ficar sem esperança de ninguém.

Ainda me lembro, pai, da tua visão
Sobrevivente no silêncio da casa,
Da ausência de uma explicação
Para o impiedoso corte de uma asa

Ainda me lembro, pai, de alguém
Que deveria segurar-me a mão,
Não sendo já o grito da minha mãe,
Mas a partida do meu irmão.


P.A.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Kremlin II

Kremlin




Toda a cidade de Moscovo converge para o Kremlin onde nasceu o sacrifício de um povo fortificado pelo poder tenaz dos seus chefes, onde se acaba sempre por desembocar numa vontade férrea e superior de completar a vida.




P.A.